
quarta-feira, 31 de janeiro de 2007
Não é em Alhos Vedros, mas é bem perto. De resto, Alhos Vedros está cheia de estórias que vieram de lá e que foram para lá. Não se tratasse de uma fábrica que ajudou a fazer uma região e as pessoas com elas. Como se pode ver também fuma. Decerto, que de vez em quando se constipa, e espirra, e mija amarelo para o rio. Nós comemos peixes do rio. Faz muitos anos.
Ainda me lembro dos meus treze anos. 1973. O liceu era justamente no Bairro da CUF, paredes meias com o cinema que já foi. Tantas estórias. Não havia liceu mais perto. As aulas de Ginástica eram feitas no Campo de Santa Bárbara, onde velhas glórias do desporto fizeram fulgor. Então, já desactivado. Tinha dias que a fumarada era tanta, de difícil inspiração, com um desagradável ardor na garganta, amargo, obrigando a fazer os exercícios físicos de lenço na boca. Tipo os cowboys do Far West incógnitos, naquela altura também muito em voga.
O fumo ainda anda por cá. Nos pulmões. É preciso um sistema imunitário de "peitos de aço". E mesmo assim não chega. Até por isso, não posso estar mais de acordo com a proibiçao do fumo (do tabaco) nos espaços públicos como fizeram hoje em França, depois da Irlanda, da Itália, da Espanha, mais dois ou três países nórdicos. Todos seguindo uma directiva europeia. Penso que é um bom sinal civilizacional e só não percebo porque demoramos tanto tempo a seguir o exemplo. Parece que para nós só a concorrência e a competitividade económica são expressões de contágio imediato nas relações com os nossos parceiros. Mas não é para todos.
Lá me constipei outra vez. Desta vez é que é, Vou Deixar de Fumar. É que eu sou tal e qual a Quimigal: deito fumo pela boca, espirro e mijo amarelo para o rio.
Luis Santos
domingo, 28 de janeiro de 2007
BLOG: ESTÓRIAS DE ALHOS VEDROS
Espaço (e tempo) dedicado às "Estórias de Gaveta", que por via digital poderão ascender à categoria (digo, dignidade) de estórias reais, contadas na primeira pessoa.
Mande-nos a sua estória, indique um pseudónimo (nome de autor) e nós publicamos.
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Autores/ Coordenadores:
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NO TEMPO EM QUE OS HOMENS ERAM MARXISTAS
Intimidades
Bem, devo confessar que também eu fui marxista-leninista.
Não que veja isso como uma mácula na minha vida, ou aqui queira fazer a confissão do meu arrependimento.
Simplesmente encaro esse facto de uma maneira diferente. Vejo-o apenas como um dos muitos momentos que em conjunto perfazem o percurso da minha existência e uma vez que passou, a esse nível, tão ou tão pouco importante como quaisqueres outros, todos eles, por serem historiográficos, passíveis de racionalmente serem encarados e compreendidos.
É verdade, também eu fui marxista-leninista.
A afirmação é digna de registo pelo facto de eu ser e, provavelmente, sempre ter sido o oposto daquilo que poderemos destacar como o estereótipo do indivíduo do indivíduo feito à luz dessa cosmovisão e, mais relevante, dado as minhas ideias fundamentais sobre a vida da humanidade e até os mais decisivos valores com que parto para enfrentar as marés do quotidiano serem completamente incompatíveis com os pressupostos daquelas correntes políticas.
Olhando para trás com o alcance e a nitidez que a memória consente, posso identificar uma tríade que é constante nas minhas preocupações. Com efeito, encarando as alterações, na sua formulação, como o resultado directo do meu crescimento intelectual, basicamente permanecem as referências da liberdade, da solidariedade e do compromisso de combater a pobreza. Verdadeiramente, sempre foram estas as minhas principais motivações para eventuais movimentações cívicas de carácter político ou não. Seja como for, mentiria se o negasse ou fugiria à realidade se omitisse aquela opção pretérita.
Como um sujeito com índole e educação abertas, isto é, não assentes em dogmas nem em outras cartilhas que não alguns valores tidos por justos e bons, como uma pessoa assim pode ter querido um dia ser comunista –isto para usar a terminologia do marxismo-leninismo clássico ou seja, aquele que, vinda da tradição do bolchevismo da revolução russa, optou pelos pontos de vista chineses por ocasião do cisma que o vigésimo congresso do Partido Comunista da União Soviética provocou no movimento comunista internacional- eis uma pergunta interessante, possivelmente capaz de propiciar respostas com aplicações exteriores ao próprio indivíduo.
Porque fui marxista-leninista? Porque aderi ao marxismo-leninismo?
Ora porquê? Fui. Para mim é tudo quanto basta. Não me preocupo muito com essas razões. Fui, deixei de ser e acabou-se, ponto final. Nunca me pareceu chão que desse muita uva. Mas fui, tinha então quinze dezasseis anos, entre os meses de Outubro Novembro de setenta e quatro e a Primavera do ano seguinte, quando, por essa ordem, aderi e rompi com a referida ideologia.
Foi com a minha participação na comissão cultural da Velhinha, entre meados de Maio e o fim desse ano de setenta e quatro que eu concretizei aquela adesão. Embora tenha sido o Rui Madeira o principal mentor e impulsionador daquele organismo, desde cedo se formaram duas correntes distintas que partiam de pressupostos diferenciados. Ao fundador que achava que a comissão se deveria empenhar em apresentar realizações recreativas e de índole cultural para os sócios da colectividade, opunha-se o Henrique Cantante, jovem trabalhador nos Telefones de Lisboa e Porto, para quem aquela deveria ter um carácter essencialmente político e ideológico, acrescentava o Zé Martins que o secundava em tudo.
Sem o meu apoio e de um outro Rui Madeira, o Rui José, os pontos de vista que preponderavam eram os mais radicais.
Corolário da gracinha, recordo um convívio dançante, numa tarde de Domingo, abruptamente terminado em nome do combate aos comportamentos e hábitos burgueses, seguindo-se-lhe uma sessão de cantigas revolucionárias em que o agitador cantou desafinadamente a canção “Fogo”, de Tino Flores.
Contudo, nessa efervescência deu-se o meu abraço à ideologia redentora.
E na verdade, tudo parecia conforme com os meus mais profundos desejos. Pois não falavam os camaradas chineses em liberdade de pensamento e de crítica e não era em nome dessa liberdade que eles, a respeito do melhor caminho a seguir pelo socialismo, divergiam dos comunistas russos? E, afinal, pelo mui importante facto de aí acabar a pobreza, não era o socialismo uma sociedade mais avançada que a democracia, ou, como se dizia nesses dias ainda não muito doutrinados, a simples democracia? E que dizer da liberdade, esse paradigma, não seria só possível quando todos tivessem as mesmas condições para singrarem na vida? Lá havia a revista “Nova China” e o “Pequim Informa” para o confirmar e nos mostrar como o socialismo tinha feito milagres e, para além disso, toda uma série de publicações piratas que bem claro deixavam como os trabalhadores, ali, viviam num autêntico paraíso.
O resultado foi o tal mergulho.
O que posteriormente fui encontrando era a hipocrisia de muitos militantes mais responsáveis –ele havia o Mimoso que fechava a mulher em casa e saía para a vida do partido, onde, além das pinchagens, colagens e afins, procurava molhar o biso em qualquer situação que vislumbrasse poder entrar água por baixo das suas pernas.
Pior, para meu espanto, era a completa falta de liberdade e o reconhecimento que aquela gente pouco se importava com a melhoria da vida dos pobres, incomodando-os mais a riqueza da maioria privilegiada e parasitária.
Isto dando de barato o policiamento dos comportamentos pessoais, o que no meu caso poucos constrangimentos trouxe pelo facto de jamais ter militado em qualquer agrupamento político.
Entrei em ruptura e abandonei o marxismo-leninismo.
Na época, durante um curto período de meses, pensei em tornar-me anarquista.
Alhos Vedros/Alvalade do Sado
14 e 15 de Fevereiro de 1996
O Mítico Largo da Largada
ESTÚDIO 57
Uma caixa de madeira (misturadora de faixas), dois Gira Discos, uma embalagem plástica de medicamento de forma circular (o Micro), um emissor tsf e uma antena metálica eram as componentes suficientes e necessárias para o sucesso. Estávamos nos finais dos anos setenta do Século XX e o engenheiro de serviço era o Luís Paulo Rosa. Nós, os outros, seríamos os animadores radiofónicos e pau para toda a obra; desde montadores de equipamento, ouvintes, capta dores de audiência, etc etc.
Na altura a única Rádio (para além de nós, claro!) era uma Emissora existente além do Tejo, uma Rádio de Abrantes, ainda hoje reconhecida como pioneira nestas andanças das emissões piratas. Por cá eram as engenhocas do Luís Paulo que faziam sucesso. Acabado de fazer um Curso técnico para depois aplicar às televisões dos clientes da loja, o engenheiro de serviço aplicava os seus conhecimentos num empreendimento complexo e arriscado.
Lembro-me de uma conversa à “sucapa” em que o técnico nos convidava a fazer Rádio. Era ilegal e por isso implicava algumas precauções. O Fazé e eu achámos pouco provável tal ideia, mas fomos alinhando. O Fausto adoptou um nome fictício, uma espécie de pseudónimo artístico (de que já não me lembro) e eu, por razões de conveniência recebi o William Bolota, como cognome, reconhecido pela ingestão permanente de bolotas que a tia Matilde me mandava do Alentejo. O Toi tinha discos recentes e era um dos grandes entusiastas; também não me recordo do seu nome de marca, mas ainda me lembro da sua postura descontraída e divertida.
Tínhamos por volta dos 16/17 anos de idade e já sonhávamos com a fama e principalmente com o prazer de sermos ouvidos. Os objectivos eram ambiciosos (para a altura) e centravam-se numa cobertura mediática que não fosse além de Alhos Vedros. Penso que uma vez até fomos ouvidos na Baixa da Banheira (não tenho a certeza), o que teria deixado o técnico um pouco preocupado.
Certo dia o Luís Paulo, anunciou o terminus da sua experimentação: “já tenho o emissor pronto”. Entusiasmados iniciámos o plano de acção. Mas como? Onde? Nas semanas seguintes, no mais perfeito secretismo, andámos de local em local, à procura da melhor localização para os Estúdios. Desde a Sala de Estar do Luís Paulo até à Garagem do Fausto, passando pela Loja, todos os locais foram experimentados. Enquanto um montava a Antena, outro se preparava para entrar nas pistas com discos seleccionados a rigor. Outro de nós teria que vir à rua com um daqueles rádios de ouvir relatos para confirmar o alcance e a recepção do sinal.
O receio da Inspecção dos Serviços de comunicação, polícias do Hertz português, que andavam à “coca” era um facto incontornável e por isso era preciso ter cuidado. Todos os dias era preciso montar e desmontar o vasto equipamento. Para o Mestre não era difícil; o pior de tudo era se o pai Plácido descobrisse as suas actividades clandestinas. Por isso o local de emissão variava consoante o medo e a disponibilidade logística.
O sucesso foi confirmado quando o som de um dos nossos discos foi ouvido lá para a zona da Bela Rosa. Da Loja até à Bela Rosa era obra: era muita distância e isso podia implicar muitos ouvintes, provavelmente mais de cinco. Nesse momento tínhamos concretizado um sonho. O Hotel Califórnia e os álbuns mais recentes dos Génesis eram a nossa Play List mais adoptada, porque a discografia disponível era reduzida e dependente dos recursos de cada um.
Assim, teria nascido a mãe legitima da Rádio Opção, que foi um marco inquestionável na cultura e na intervenção cultural em Alhos Vedros, mais tarde associada à CACAV, que todos reconhecem como uma Associação de prestígio no Concelho da Moita até aos dias de hoje.
(continua)
Luís Mourinha
sábado, 27 de janeiro de 2007
DO FUTEBOL À REALIDADE: UM PERCURSO COMUM NO LARGO DA LARGADA
sexta-feira, 26 de janeiro de 2007
ESTÓRIAS DE OUTROS VELHOS
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TALHÃO DO CEMITÉRIO VELHO
sábado, 20 de janeiro de 2007
INTIMIDADES
OS ÁGUIAS FUTEBOL CLUBE
A equipa, essa, formou-se pelo correr do tempo. Era um bando de miúdos que so ía pousar numa das praças da Vila, onde, entre outros jogos, com ou sem apetrechos mais que os corpos, era o futebol o que mais empolgava a pardalada que a ele se entregava de alma e coração, se memória de necessidade de marcar encontro.
Aquilo funcionava mais ou menos assim. Com uma bola disponível num café vizinho cujos proprietários tinham um filho que pertencia à trupe, os primeiros a chegaram ao pelado tratavam de agarrar no brinquedo para, de imediato, se entregarem aos chutos e às fintas.
Era Sol fugidio. Magicamente atraídos pelo cheiro da comida lá aterravam outros que se iam incorporando na jogatina, assim fazendo inchar as turmas até que um número razoável suscitasse a escolha das partes e, tudo feito segundo as regras, propiciasse o início do desafio do dia.
Não vou dizer que fosse o futebol o principal motivo daquele hábito de ali desaguarem tantos petizes. Na verdade, a maioria eram gaiatos de rua, isto é, sem qualquer sentido pejorativo, ganilha que por falta de condições domésticas era forçada a passar os seus tempos lúdicos fora de portas e, não só pela lei do menor esforço, não se decidiam a ir mais longe pelo que daquele largo faziam o seu ponto de encontro.
É certo que ao lado havia o jardim público do burgo. Mas ali mandava o tio Epifânio, o encarregado da Junta de Freguesia pelo bom estado dos canteiros de flores e ele, o velho Bifanas, como os acessos de raiva faziam, entre nós, chamar-lhe, todo poderoso, jamais hesitava quanto a espingardear as correrias e, com isso, a excomungar veleidades, especialmente nocturnas, dada a iluminação, de utilizarmos os bancos como balizas para joguinhos de dois ou três sem guarda-redes.
Em todo o caso era o chamado desporto-rei o preferido, não quero exagerar mas talvez o único a gerar unanimidades e apesar de todos os problemas a ele ligados, dos puxões de orelha, por via das queixas relativas a uma ou outra vidraça quebrada, aos esféricos apreendidos pelo poder dos mais velhos, apesar dessas vicissitudes, dizia eu, era o único jogo que nunca passava de moda e, ao contrário dos berlindes ou do peão, cada qual com épocas específicas, era aquela actividade desportiva que de sazonal nada tinha.
E diga-se com justiça, até as miúdas gostavam de ver aqueles rodopios em busca do golo e quantos homens não paravam para admirarem os engenhos daqueles Eusebiozinhos.
Foi pela experimentação dos talentos e a descoberta das habilidades que as posições se foram definindo e não andarei longe da realidade se aqui escrever que, pelo menos à primeira vista, reuníamos um bom conjunto com todos os lugares preenchidos a contento.
Modo geral, todos éramos capazes de fazer fintas –como seria de esperar, uns mais desembaraçados que outros- e de passaras bolas à distância, tal como estávamos capacitados para remates de primeira ou elaborar um centro minimamente aceitável.
Tínhamos horas e horas de treino diário que de nós faziam autênticos moiros de trabalho.
Para que não mace, entre os artistas escolherei apenas alguns. Dos outros, eventualmente poderei falar a propósito de outras coisas e em outras ocasiões.
O Almeida Dias, por exemplo, um lateral direito que em alguns momentos do jogo fazia de extremo e, geralmente, conseguia umas quatro ou cinco jogadas em que aparecia a centrar para a cabeça ou a bota de algum dos avançados ou de quem lhes vestisse a pele.
O Almeida Dias que foi precoce no abandono dos estudos e cedo entrou no mercado de trabalho, exactamente o mesmo que desde o princípio quis ser homenzinho e antes de todos deu o nó, sequer sem ter sido militar, aquele que hoje, depois de um começo como aprendiz, tem um negócio de tipografias que lhe oferece um padrão elevado.
Isto sem poder deixar de recordar o Toninho, o Careca, vá lá saber-se porquê a alcunha, o culpado de todas as derrotas, o guarda-redes por graça de cujas azelhices perdíamos e que na sua passividade de santo era esquecido em todos os momentos de glória.
António Manuel Azevedo Malveiro, o homem com a mão mais temível para jogar ao “palmo e cagada” (1), filho do dono do café, em tempos ele próprio guardião de uma primeira equipa do Peniche, o Toninho que nada ligava à escola de que desistiu para ganhar a vida como empregado de balcão numa velha pastelaria da baixa pombalina, o keeper cujo ponto fraco eram as saídas, já que entre os postes tinha tiradas de se lhe tirar o chapéu.
Ou o Rui Madeira, o guias brancas, um mandrião com pés de ouro, verdadeiro exemplar do menino que acabou perdido em aventuras de alibabá, vulgarmente um excelente armador de jogo de cuja arte saíam muitos dos golaços que nos faziam pular de alegria.
Pois foi com esse fermento que a equipa foi evoluindo para um clube.
Assunto sério, só poderia ter sido levado a peito e elegemos Presidente e tudo, o Zé Augusto, o mais velho de todos e reconhecidamente considerado um indivíduo inteligente e responsável que depois da escola industrial entrou como operário para a Quimigal onde ainda hoje ganha o pão de cada dia.
Foi de tal ordem o afã que chegamos a emitir quotas que o João Manuel, médio centro que também fazia de segundo homem na frente mantinha em perfeita ordem e actualizadas.
Mas havia mais, muito mais.
O Luís Carlos, filho de comerciante em permanente abastança, possuía um sótão só para ele e as suas fantasias e, como é bom de ver, facilmente a camaradagem fez daquele espaço a sede do clube, onde, para além de alugarmos jogos uns aos outros o que só os mais afortunados pagavam, podíamos ostentar, numa prateleira, cujo posicionamento foi sabiamente decidido, algumas taças subtraídas às memórias paterna do pai do Toninho e que serviam para intimidar as visitas.
Posso mesmo evidenciar a realização de um torneio entre quatro equipas da freguesia que, sem o sabermos, acabaria por determinar a extinção do nosso, em função da selecção que o nosso segundo lugar provocou com a saída dos melhores de nós para os campeões.
Não foi isso que apagou aquela bianuidade de grande satisfação e orgulho com aquele a que todos os fundadores, mesmo o resignado Toninho adepto sportinguista, em espontânea unanimidade, decidiram baptizar por Águias Futebol Clube.
Alvalade do Sado
12/02/1996
sexta-feira, 19 de janeiro de 2007
Auditório - Parque das Salinas
É verdade. Temos um auditório ao ar livre, no Parque das Salinas, de bonito efeito. Infelizmente não tem uso. Os materiais vão-se degradando e enferrujando, e a funcionalidade é pouca, ou nenhuma. Estamos em crer que tal abandono se deve ao lago de água podre que fica ali paredes meias. Como se pode promover ali o que quer que seja, se o lugar envolvente está muito feio e cheira mal. Deviam as nossas autoridades políticas arranjar solução para esse lago que nunca chegou a ser. Até porque o Parque das Salinas constitui-se como um dos investimentos públicos de maior interesse na aldeia, bem concebido, melhor desenhado e aprazível quanto baste.
Luis Santos
ESTÓRIAS DE ALHOS VEDROS
Este Bolg é um espaço literário.
Posted by ESTÓRIAS DE ALHOS VEDROS
O AVÔ JOÃO
VIVE E DEIXA VIVER
(ao Manuel Neto)
Quando o questionavam sobre seu o modo de vida, Manel Neto, respondia imperativamente: "quem vai vai, quem está está". Sentado à porta da taverna, mesmo no centro da Vila, por onde passavam conhecidos e desconhecidos, Manel Neto trazia consigo um curriculum invejável: contava-se que nas inúmeras incursões ao balcão da tasca, era capaz de beber um garrafão de vinho, acompanhado de uma e apenas uma azeitona. Se é verdade ou não, nem sabemos (nem interessa para o caso)... mas à porta da tasca, lugar sacralizado pela sua presença diária, o taberneiro colocou uma cadeira onde o religioso se sentava e de onde poderia ver o mundo, claro está o seu mundo, mergulhado no licor que lhe dava cor à vida. De lá, perante o mundo suspirava aforismos sábios sobre o que lhe parecia ser a vida. A mais profunda e sábia foi aquela, cuja mensagem afastava todos aqueles que lhe queriam impor uma forma de vida, com a qual não se identificava: "amigo não empata amigo; inimigo muito menos"; mensagem essa, muitas vezes expressa no aforismo: "quem vai vai, quem está está".
E para quem parecia nada saber de ética ou de respeito pela vida dos outros, o Manel, analfabeto de formação, dava lições de alta cultura: quem passa deve seguir o seu caminho e deixar estar quem está, na sua vida, como acha que deve estar.
Figura bem popular, amigo de toda a gente, pacifista por integridade, o que não quer dizer que estivesse isento de algumas súbitas fúrias, o Manel Neto era saudado por todos e a todos saudava.Há uma estória engraçada que se conta a seu respeito. Uma vez que foi ao (saudoso) Cinema de Alhos Vedros com o seu filho "Lhites", ao ver aparecer o Leão da Rank Filmes que lhe serve de genérico, vira-se para ele e diz: "Vamos embora "Lhites" que o pai já viu este filme." Uma outra das suas imagens de marca era o seu trinado dentário. Enquanto esbaforia os mais enternecidos vapores etílicos, rangia os dentes de tal forma que pareciam afinados pares de castanholas, findo do qual elegantemente rematava: "Aí, Cão da Lama".
Com Carisma e com princípios, que faltam a muita boa gente hoje em dia. Saber viver e deixar viver é um princípio ético muito importante. Nele se resume muito do que se diz (ou se pode dizer) sobre a liberdade individual. Liberdade de cada um poder escolher a sua própria vida, sem imposições exteriores, desde que essa Liberdade individual não interfira com a Liberdade dos outros. Assim se resumia o Aforismo Kantiano, de que "a minha liberdade termina quando começa a do outro", da mesma forma que Manel Neto reafirmava o postulado: "Quem vai vai, quem está está".
Dialógico e Alves
AS RAZÕES DO CORAÇÃO
(A Racionalidade do "Pathos")
Terá dito algo assim, que depois transformei em texto, um pouco acrescentado pela ficção e apoiado na minha memória. Por isso, o que o Carlos me disse, disse, e o que eu escrevo são as palavras do Carlos mais o que me parece que ele teria dito. É a equação natural, mas por vezes traidora, que acrescenta um ponto ao conto.Sentados à sombra da árvore grande, bem perto da bica manual onde lavávamos as mãos e refrescávamos a cara nas tardes quentes de verão, o Carlos fez-me o relato mais emocionado de uma viagem ao seu mundo interior, algures entre o paraíso, passando pelo coração, sem o guia natural do pensamento lógico e ordenado.
CASAR EM ALHOS VEDROS
Ele esperava dentro do veículo. Tinha de ser rápido! “Depressa! Para a estação de Bombel”. O nervosismo de uma fuga contrabalançava com um esperança indefinida. Misto de sentimentos, medo e esperança, insegurança e verdade…tudo ao mesmo tempo, confuso, mas promissor. Juntos, apoiados no medo, abriam um novo trilho: um caminho a dois e um misto de abandonos inconfessáveis. Para trás, ficavam as resistências a um namoro proibido, enjeitado pelos pais, mas assumido pelos próprios como opção legítima de vida. Cada vez mais longe, ao ritmo do táxi, ficava um Alentejo preconceituoso e impeditivo.
“Não há tempo a perder…o comboio não espera”... "mas… e o sapato?” Perdeu, caiu. A agitação do momento não deu tempo… esgueirou-se num último esforço de o alcançar. Gesto imprudente! O que estava combinado no maior dos secretismos, foi descoberto. A Vitália viu, viu tudo: “a filha da Zalinda fugiu de casa”.
“Deixa”, disse ele, “compramos novos”. Estas palavras compensaram o deslize e dava novo ânimo à viagem. Ele trataria da compra. Que importância teria um sapato, se o compararmos com o raio da terra? A imensidão do momento não se compadecia com pormenores insignificantes. Para trás ficava a ficção realista de sapato perdido, a descoberta de Vitália, as angústias, os impedimentos e um Alentejo dominado por preconceitos, enfim, memórias de uma vida difícil de rejeições e obstáculos.
Já no Comboio para confortar e para ganho de coragem, ele acrescentava: “Casamos em Alhos Vedros… começamos tudo de novo. Os teus pais assim escolheram. E sabes… não somos os primeiros a fugir. Muita gente vai para lá, há mais trabalho… na CUF, na CP . Aqui nada conseguiríamos, aqui trabalha-se toda a vida na cortiça”
A avaliar pelo silêncio, ela parecia concordar, comprometendo-se na obsessão de ocultar um pé nu, que só por si denunciava a fuga.
Que viagem memorável! A angústia de uma fuga proibida, compensada pela esperança de uma vida a dois. Barreiro… Alhos Vedros, a proximidade com Lisboa, tudo prometia neste mundo admiravelmente novo. Novo, mas assustador, assim como assusta tudo o que é novo e desconhecido. Mas a escolha estava feita e os pais dela não compreenderiam. Que aflição, essa sensação terrifica de fugir para a liberdade.
Descalça, escondia a confusão do momento. Sem sapatos não somos gente.
Apearam-se em Alhos Vedros, já de manhã. O dia nascia ao ritmo de uma nova vida. Mas estava tudo planeado. Já tinham casa e sustento. De gravata deslocada e gabar dine dobrada no braço esquerdo, limpava o suor incontido de uma longa caminhada.
Minutos depois estava de volta à Estação prometida, trazendo consigo uma caixa branca por abrir. “Toma, calça-te. A partir de agora, nada temos a temer".
Recordo-me de uma conversa longa e atribulada sobre olhos, navios, e batalhas. Insisti. Queria ver de perto o navio dos piratas.
“Pai, onde está o barco?”. Puxava-lhe pelo braço, lançando-me para a janela já embaciada pelo vapor da minha ansiedade. As dedadas marcavam a direcção misteriosa. Pacientemente pedia-me para esperar: “só mais à frente, nas salinas, antes da GEFA… calma, espera mais um pouco”. Mas não, impossível esperar, já não suportava mais; o desejo era superior a qualquer impedimento.
Indolente, a Camioneta do Cândido Belo rodava ofegante as portadas castanhas do Forno da Cal. Espalhava à volta o verde-claro brilhante da sua presença, abandonando gente e mais gente nas várias paragens, raras mas definitivas. Era hora de trabalho nas fábricas incontáveis da vila de Alhos Vedros. Ao longe, as barcaças do Tejo, ao lado da Corticeira, carregavam-se a cortiça de mais uma jornada. De sacas à cabeça, homens iam e vinham, buscando os fardos pesados, que largavam nas fragatas com destino a Lisboa. “Têm calos como os burros… aqui” – exagerava o pai. “No pescoço ai?” – perguntei-lhe.
No autocarro tudo normal, não fosse a passividade, a esperança e a vontade de chegar ao destino. Concentrados no final da viagem, os viajantes fixavam o olhar em frente, num silêncio compreensível, misturado com o ranger esforçado do motor já decrépito. De olhos fixos na janela, dei um salto acompanhado de um grito de alegria incontida: “olha é ali” e apontei o dedo indicador, erecto, apontava na direcção do objecto desejado. Tinha de sair dali; era preciso ver mesmo lá de perto o barco pirata.
Nesse dia compreendi que um autocarro é um meio e nunca um fim. É um instrumento para chegar e nunca uma espécie de sala de estar. Queria descer, queria chegar. “E tem piratas, não tem pai?” Subi no encosto do banco. Esgueirei-me para tocar à campainha, mas não consegui. “Não” - explicou o pai – “ os piratas não existem, percebes(?)… morreram”. Não ouvi com a atenção devida, mas ele continuou: “Isso dos piratas são histórias que se contam… e já não existem.” Negativo. Ouvi mas não gostei da explicação. Ignorei O pai tem sempre razão, mas desta vez – pensei. Ainda lhe respondi: “existem pois”. Importante naquele momento era o barco com piratas. Tudo o resto era supérfluo e vazio.
Bom baleando a máquina a tiracolo, o revisor percebeu a impaciência. Fixou o joelho no banco da frente em malabarismos de equilíbrio. Olhou-me e disparou um psst psst consolador. Pensei: nunca hei-de ser revisor. Andar e bombalear num corredor incerto e infindável, não isso não. Libertou nota a nota de vinte escudos, os dedos ocupados e guardou-as metodicamente na pequena mala de couro. Liberto esticou-me a mão oferecendo um “passou bem?”.
- “Tá ali, tas a ver? É aquele!”
- “Não é filho, aquele não é o navio dos piratas. É uma fragata. É um barco grande que leva cortiça para Lisboa.”
O pai continuou, mas ficou uma imagem pouco clara da explicação. Não assimilei na totalidade a lógica do seu discurso. Aliás, acho que nem fez muito sentido; um barco dos altos mares a transportar cortiça. Ele que tudo sabia, como poderia estar enganado? Ficaram muitas dúvidas. Recordo ainda uma série infindável de perguntas, que lancei ofegante: “e o homem que lá está não pode ser um pirata? Porquê? E os homens que andam lá dentro não são aqueles assim… sem um olho?
Para mudar o rumo à conversa, o pai perguntou: “diz-me … a ver se sabes: como se chama um homem sem um olho?”
A máquina a tiracolo apoderava-se da conversa, e soletrava: “za…za-ro-lho”
“É um pirata” – disparei com toda a segurança.
Uma gargalhada efusiva e geral espalhou-se à minha volta. Neste momento já todos os viajantes participavam da minha humilhação. Estiquei a língua em sinal de desaprovação.
Olhei a senhora em frente, redobrada para trás em delírio boquiaberto. Desviei o olhar e repeti confiante: “é pirata, é mesmo, pronto”
Escrito em Nov. 1989
Ass: Dialógico Ponto Com
SEM ABRIGO
INTIMIDADES
Sebastião Sorumenho
Para aAlexandra Grave,
poetisa da cor,todo o amor que haja nesta vidapara ti.
OS AMORES PERFEITOS
A TIA ENGRÁCIA
CARLOS MARX E SILVESTRE STALLONE
Posted by ESTÓRIAS DE ALHOS VEDROS
quarta-feira, 17 de janeiro de 2007
BLOG "ESTÓRIAS DE ALHOS VEDROS"
O que não se disse, é que pretende ser um espaço aberto, livre e despretensioso (se é que esta palavra existe), embora lierário.Literário, porque se dedica à escrita, mas sem as pretensões descabidas de elitismo ou clubismo. Isto porque as Estórias não têm dono nem estatuto social privilegiado; as estórias do "burgo velho" (Outros Velhos) são património de todos e por isso (repetimos!), não têm dono. Não têm dono, mas têm autores, que desejamos conhecer e publicar. E os autores não têm idade; são jovens e velhos, são apenas e simplesmente as pessoas que têm algo para contar, seja deste tempo ou de outros tempos.E já agora (não sei se concordam!) com Estórias destas também se faz História. São relatos como estes, que, pertencentes à nossa memória colectiva, podem contribuir em conjunto para a descoberta da nossa identidade cultural (esta agora foi um pouco exagerada, admitimos).Por isso é um Blog de todos os que têm Estórias para contar e para ficcionar. A verdade pura e dura não existe (provavelmente, não temos a certeza), dai que em nome desse relativismo e em prol da criatividade, as boas estórias têm sempre uma boa dose de invenção. Por isso, conte a(s) sua(s) Estória(s) ou Conto(s) e acrescente o(s) seu(s) "ponto(s)".
Seja bem-vindo!
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AS RAZÕES DO CORAÇÃO
(A Racionalidade do Pathos)
Foi assim que ele me contou a Estória. Uma Estória vivida na primeira pessoa. Uma experiência de amor, que ultrapassa toda a racionalidade previsível. Afinal nem tudo está pré-determinado como é pressuposto da ciência. Há razões que estão para além da Razão.
Parte desta narrativa terá acontecido no Jardim do Coreto. Espaço aberto, em terra batida, circundado por árvores, onde crianças e idosos, enfim, onde toda a gente se passeava, nos momentos livres, ali mesmo em frente à S.F.R.U.A. Nesses tempos ainda era possível ouvir a Filarmónica, que dava vida e ânimo à Velhinha, que orgulhosamente dava largas à sua juventude. Assim, aquele era um espaço social privilegiado, ponto de encontro, uma espécie de Àgora portuguesa, por onde se cruzavam pessoas e actividades.
Teria sido uma experiência tão intensa, que o interlocutor sentiu necessidade de contar a alguém. Chamou-me e ali estivemos horas a conversar. Para dizer a verdade, pouco falei; não tive coragem de interromper descrição tão sentida e eloquente. Até hoje, ninguém me conseguiu transmitir de forma tão rigorosa e ao mesmo tempo emotiva o que é isso da paixão por alguém. Desse momento terá nascido um amor para sempre, daqueles que ficaram inscritos ad aeterno nas árvores do Jardim do Coreto, com coração e com o respectivo Cupido, tipo selo a legitimar uma relação entre duas pessoas inseparáveis.
Terá dito algo assim, que depois transformei em texto, um pouco acrescentado pela ficção e apoiado na minha memória. Por isso, o que o Carlos me disse, disse, e o que eu escrevo são as palavras do Carlos mais o que me parece que ele teria dito. É a equação natural, mas por vezes traidora, que acrescenta um ponto ao conto.
Sentados à sombra da árvore grande, bem perto da bica manual onde lavávamos as mãos e refrescávamos a cara nas tardes quentes de verão, o Carlos fez-me o relato mais emocionado de uma viagem ao seu mundo interior, algures entre o paraíso, passando pelo coração, sem o guia natural do pensamento lógico e ordenado.
“Quando a vi pela primeira vez, os olhos saltaram-me das órbitas. Que sensação fabulosa! Por momentos vivi a fantasia incontrolável de um sonho real. O Coração bateu três vezes, irregular em aflição, antes de conseguir recuperar o fôlego de um batimento normal. A boca rebentou na imensidão de um sorriso, que, nervosamente, saltou em gargalhada desmedida. Sorri e ri, num volume suspeito e incompreensível para os que passavam.
Que vergonha! Ser feliz até pode ser ridículo e comprometedor aos olhos dos outros. Por momentos vi um paraíso qualquer onde estava sem nunca lá ter ido. Tudo o resto não compreendi muito bem: o batimento cardíaco irregular fez-me perder a noção da realidade. A um autismo agradável sucedeu-se a perda instantânea do sentido mais precioso; perdi a visão, perdi-me num oceano incompreensível de uma lucidez qualquer. Privado de experiência visual, abandonei a sensação de luz, aquela que os gregos antigos reclamavam de Apolo e que tanto prezavam. Mas que me perdoem os gregos e os outros também, mas a racionalidade tornou-os alienados. Só os hedonistas compreenderam de facto, que por vezes há visões que a racionalidade não consegue ver. Provavelmente o coração tem olhos e vê mais longe do que se poderia aceitar”
As sucessivas mutações que senti, num momento tão curto, associadas a um fantasma benigno que me visitou, ajudaram-me a perceber que isto é paixão. A paixão é um qualquer movimento irracional próximo da loucura, porque é carente de cegueira. O apaixonado não vê. O apaixonado perde a racionalidade e eu perdi… enlouqueci. Parece que quem está apaixonado fica louco; que o homem louco é o único capaz de amar e a felicidade é uma viagem ao mundo que está além da lógica; é a experiência incompreensível das trevas sem fio de luz. O homem doente de paixão não vê. Imagino que o verdadeiro amante seja autista.
Se fosse um teórico destas coisas da Paixão, escreveria um livro, no qual descreveria as várias categorias hierarquizadas da Paixão. Abaixo do autismo tomava lugar o míope, aquele que ama mas vê (pensa). Logo abaixo, em terceiro lugar, o dióptrico que vê, embora com grande dificuldade. Vê demais para amar. Não ama é racional. É desagradavelmente saudável, porque ainda não perdeu os olhos.”
O Carlos continuou a descrição da sua experiência pessoal inesquecível. Muitas das suas palavras emocionadas perderam-se com o vento. Claro que depois de acalmar me disse coisas triviais, mas sentidas: “isto é amor… adoro aquela miúda.” Esta Estória resultou numa vida em comum. A mim ficou-me a experiência deste relato. Para o Carlos foi o inicio de uma vida em comum, assente numa paixão incomensurável.
Dialógico Ponto Com
sábado, 13 de janeiro de 2007
INTIMIDADES
Quando o avô João lia o jornal, umas vezes trancado no escritório, outras refastelado na sua cadeira pessoal, na sala, dependendo da época do ano o estar junto da lareira ou das portas escancaradas para o alpendre meia-lua e o laranjal subsequente, nesses momentos de tiquetaqueado puro e simples, a nenhum dos miúdos que habitualmente circundavam pela residência era permitido o mais leve ruído que pudesse perturbar o ritual informativo do imperador.
De Inverno, aquele era o período em que a avó achava por bem obrigar a pequenada a cumprir os deveres escolares. No Verão, todos eram enxotados para o quintalão, preferencialmente, para os fundos.
Pois é como estão a imaginar, o avô não era um homem dado a brincadeiras ou outras intimidades com o sector juvenil da prole e muito menos era do género de apaparicar quem quer que fosse.
Vendo-o hoje com os olhos de homem, tenho para mim que, para ele, os netos eram uma espécie de fatalidade com que tinha de conviver, como o preço a pagar pelo facto de ter desejado procriar. Restava-lhe minimizar os custos o que conseguia pela regra inquebrável da expressa proibição de lhe perturbarem o sossego.
Por isso, quando nos perguntava algo respondíamos sempre em voz baixa e mesmo quando nos dirigia uma graça que nos levasse a sorrir, fazíamo-lo com o comedimento de quem sabia não poder dar largas a qualquer excesso ainda que pouco perceptível fosse.
Lembro-me de correrias, na sua ausência, quer pelo prolongamento de brincadeiras de rua, quer pela prática de jogos de escondidas pelos dois pisos e sótão da mansarda. Estando ele em casa, reinava a mais completa quietude que, pela mundivisão oficial, era a melhor companhia da ordem impreterível ao bom e regular andamento das coisas.
Ordens, na verdade era disso que se tratava. o avô dava-las e a ninguém passava pela cabeça não as cumprir.
E, como soe dizer-se, havia-las para tudo e todos os gostos. Era para as refeições às tantas horas, para o encontro familiar meia hora antes de cada uma delas, para o café e os licores do serão a outras, sem contar com as inerentes ao funcionamento das parcelas domésticas que ficavam a cargo do pulso de ferro e língua sóbria da matriarca e aquelas que estavam directamente ligadas ao quotidiano do corpo, como o casaco ou o sobretudo apresentado à saída ou então os sapatos luzentes e outras coisas do género.
O avô passava as manhãs no escritório da fábrica a dar conta dos seus negócios e se, por causa deles, não tinha que sair para lado nenhum, depois da sesta que se seguia ao almoço peniscava algo e lia o jornal que, geralmente, interrompia para falar com algum filho ou para as suas cogitações. À noite, só não seroava entre os seus quando os afazeres de provedor da Santa Casa lhe impunham cuidados.
Ele sabia que devia ser assim e nunca consentiu que de outra forma fosse.
Afinal ele cresceu rico e, tal como o seu pai, se por um lado lhe foi exigido que se preparasse para continuar a sê-lo, por outro, aprendeu a fazê-lo na preservação ortodoxa dos valores em que alicerçava o universo daquela cultura familiar e social.
Logicamente, levava o seu e todos os outros papéis muito a sério e no que pessoalmente lhe dizia respeito, não prescindia de nenhuma das suas prerrogativas.
Contudo, ao nível das fontes de reprodução da riqueza material, soube compreender e adaptar-se ao seu tempo. Herdou muitas terras, começou por ser iniciado nas artes de lavrador, mas, uma vez adulto, cabeça de casal e à frente dos seus cabedais e fazendas, teve o engenho de se converter em capitão de indústria, baptizando-se com a simples preparação de cortiça, mas depressa passando à sua transformação, com o acrescento da produção de colas e, com o tempo, a entrada em outros ramos que variaram do comércio e serviços aos transportes fluviais.
Notável, na Vila, com a idade regressado a uma religiosidade fervorosa após os anos de jacobinismo de uma juventude republicana, o avô João foi durante muitos anos eleito para atender aos destinos da principal instituição de solidariedade social em todo o concelho, deixando bem patente o seu testemunho com a criação da ala hospitalar, onde teve o longo alcance de fazer construir um moderno bloco operatório que ainda hoje, prova a sua contribuição, apesar da placa alusiva há muito ter sido arrancada e extraviada.
Mesmo tendo em conta a sua baixa estatura, sobressaía no mínimo trato, tanto pela segurança e serenidade que mostrava no falar e em todas as atitudes, como pela indumentária sempre escolhida ao nível dos melhores dias de festa.
Nasceu e viveu naquela casa onde agora mora o meu tio Jofre, da qual saiu por moto próprio, alegadamente pelo desejo de maior sossego que os seus oitenta e poucos anos justificavam e também pelo facto de não querer sobrecarregar ninguém perante a possibilidade de necessitar de acompanhamento ou uma assistência sanitária mais personalizada.
Por isso contratou o serviço de um quarto num lar da capital, a seu ver muito recomendável, coma direcção do qual negociou a autorização de entrar e sair quando quer, bem como o privilégio de poder passar temporadas em outros locais, sem com isso cair na situação de, eventualmente, poder perder o seu lugar cativo.
É claro que vulgarmente é o avô que nos visita mas, por vezes, passam-se semanas e semanas em que ele se deixa ficar e, nessas ocasiões, são os parentes que, se o querem ver, se deslocam à sua presença.
Só por uma única vez fiz essa peregrinação, numa tarde de sábado primaveril.
Lá estava o avô João, o único homem saudável do convento - o outro que lá vive está permanentemente deitado devido a uma série de enfermidades - lá estava ele, dizia, para meu grande espanto todo sorrisos e mui sociável, no meio de um magote de senhoras com olhinhos brilhando de alegria.
Alvalade do Sado
6 de Fevereiro de 1996
RECONHECIMENTO E HOMENAGEM
BLOG:ESTÓRIAS DE ALHOS VEDROS
Espaço (e tempo) dedicado às "Estórias de Gaveta", que por via digital poderão ascender à categoria (digo, dignidade) de estórias reais, contadas na primeira pessoa. Mande-nos a sua estória, indique um pseudónimo (nome de autor) e nós publicamos.
Aceitamos as Vossas Estórias, que podem ser enviadas para:
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Autores/ Coordenadores:
- Luís Carlos Santos
- Luís Manuel Mourinha
sexta-feira, 12 de janeiro de 2007
AQUI, AO PÉ DO RIO
A construção do Parque trouxe um ar de graça a todo aquele lugar envolvente. E depois, do parque até ao interior da vila, foram construídos mais duas grandes zonas verdes, de muito bom gosto: uma que se estende até ao antigo cinema, agora Centro Cultural José Figueiredo; e outra, mais a norte, que se estende até ao Lavradio. A gente passa por ali de carro, circundando todo o Parque, e aquele ar de graça faz-nos mais felizes. São coisas destas, sem dúvida, que aumentam a qualidade de vida das populações.
Também é verdade que grande parte dos prédios agora ali construídos continuam feios. Será dos arquitectos? Será por se gastar pouco e vender por muito? Porque será?
Santos, Luis - Nós e o Rio. Alhos Vedros: Ed. CEAV, 2006
quarta-feira, 10 de janeiro de 2007
BLOG: ESTÓRIAS DE ALHOS VEDROS
É um espaço literário (já foi dito!).
O CARLOS MARX E O SILVESTRE STALLONE
O Carlos era amigo de toda a gente. Por detrás daquele ar desorientado que muitas vezes o punha a falar alto pelas ruas e a dar más respostas, havia um sorriso complacente a revelar que nada daquilo tinha grande importância. Manifestava o direito a que o deixassem zangar-se consigo e com a vida. E toda a gente lhe concedia esse direito. Um prenúncio de mudança de tempo, comentavam.
Era um dos nossos conterrâneos de maior omnipresença. Nas suas inúmeras deambulações ao longo do dia, muitas delas à volta do centro da aldeia, volta e meia lá aparecia ele, e sempre um gesto de amizade o aguardava.
Teve azar na vida, o Carlos. Uns diziam que os seus devaneios mentais se deviam à Guerra do Ultramar, outros que foi um problema derivado de uma otite aguda. Nunca cheguei a saber. Mais de uma vez, o ouvi dizer que o tinham internado muito tempo e lhe tinham estragado a vida, e a nossa mente corre à procura de referências e passa até por grandes filmes como foi o “Voando sobre um ninho de cucos”, de Milos Forman, que é sempre bom de recordar…
Houve um período em que o seu ar simpático, de barbas grandes, óculos por detrás das barbas, fazia lembrar um daqueles cinco personagens que apareciam em cartazes nalgumas sedes políticas, no pós Revolução de Abril de 1974. Cabeças coladas umas às outras, barbas e bigodes longos, perspectiva apontada ao infinito.Eu era novinho, mas recordo-me. Enfim, barbas e bigodes que naquele tempo fizeram moda. Outros tempos.
O Silvestre, como sabemos, também tem os seus devaneios. Na sua adolescência parecia ser um miúdo igual a tantos outros. A fase delicada de assumpção da idade adulta, infelizmente, aparentemente, não lhe correu da melhor maneira. Mas, enfim, salve-se o ditado, “de mouco e de louco, todos temos um pouco”. Porque, apesar de tudo, são vidas que se cumprem. Heranças genéticas ancestrais que percorreram tempos e tempos, anos e anos, para cá chegar, como qualquer um de nós. Nomes que sucederam a nomes, vidas atrás de vidas…
Um dia o Carlos cruzou-se com o Silvestre ali na esquina do Américo Pinto, mesmo defronte ao Coreto, nesta terra de homens velhos com asas. Parou, olhou para o outro e disparou-lhe com aquela voz potente que se lhe reconhecia:
- "Ouve lá pá, sabes quem é que eu sou?”
- "Sei, pá", respondeu o outro com voz igualmente altiva, "és o Vasco da Gama”.
- "É, pá, como é que adivinhaste?”.
Carlos Alves
segunda-feira, 8 de janeiro de 2007
INTIMIDADES
por
Sebastião Sorumenho
Para a
Alexandra Grave,
poetisa da cor,
todo o amor que haja nesta vida
para ti.
OS AMORES PERFEITOS
Nascem, crescem, florescem
alegram-nos o olhar
e quando o Sol ajuda
as cores a brilhar,
o nosso olhar insiste
para neles poisar.
Quando a Primavera acaba
deixam sair a semente,
e quando o Sol ajuda
e a chuva, e o ar…
nascem novamente
para nos encantar.
Morrem depressa os amores perfeitos
mas sempre voltam a nascer.
João Martinho
Quanto à minha tia Engrácia sempre simpatizei com a sua maneira de ser que a faz andar de cabeça levemente inclinada sobre a direita, para olhar o semelhante pelo óculo esquerdo, sem com isso omitir os sorrisos da cortesia pelos cruzamentos do dia a dia. Aquele seu de quem por vezes canta na rua, aparentemente vivendo nas nuvens mas que eu sei, pois a conheço bem, impreterivelmente dado a admirar as colorações e figurações da atmosfera, ou quaisqueres eventos da vida envolvente.
Diz minha mãe que ela sempre foi assim, desde muito pequenina dada a saltitar pelos passeios, passando tão facilmente de brincadeiras a canções, como repentinamente se podia perder numa erva brotando pela ranhura de um muro ou, tão só, em coisas do género de uma beata arrastada pela corrente pluviosa em busca de se cascatear pelas sarjetas.
“-Mas tinha uma coisa boa. Nunca deixava de dar as saudações a ninguém.”
E mais não fazia que a sua obrigação que, nestas coisas, os meus avós paternos caracterizavam-se por uma exigência sem memória de qualquer concessão à facilidade.
Pois não foi isso de em praticamente tudo o que importa levar a sua à vante.
O tio Lino ainda hoje se ri ao contar o teatro de pé-de-vento com que a minha tia arrancou à tradição o beneplácito para estudar no liceu, então uma gaiatinha magricela e voz aflautada, com a impensável energia de bater o pé e ameaçar, vejam só, pôr termo à vida em nome da sede de sabedoria.
Nem outra coisa seria de esperar. Fez os estudos com distinção e até que se formou em Histórico-Filosóficas, nunca teve a mais leve reprovação.
O Dr. Cabrita, o meu pediatra e que tinha acabado o sétimo ano com a minha tia, perguntava sempre por ela e por vezes falava do seu nariz no ar que sendo leal e prestável com os amigos, fazia dos rapazes lacaios e tratava as outras miúdas como se elas tivessem que aprender constantemente a atravessar a estrada.
Logicamente impregnada da sua personalidade de quem vive na Lua, condizente com a sua capacidade de ler e interpretar os mestres em volumes raros para a sua idade.
É o lado intelectual da tia, aquele que a fez ser uma professora exigente com o seu próprio trabalho, a ponto de se poder gabar de nunca ter faltado aos alunos que, ao longo de uma trintena, muitos e variados foram, embora todos possam recordar-lhe as trocas de turmas e de salas, ou as escorregadelas e encontrões em cadeiras e mesas por via do entusiasmo com a prelatória, mas também o prazer de a ouvir fazer simples o que antes parecia complicado e lhes fazer entender aquilo que antes, por desconexo, soava a incompreensível.
Ali tinha o seu Olimpo, onde podia dar largas ao seu gosto de cogitar, sem se preocupar com os pontos de vista da plateia sobre o seu comportamento, pois apesar de no fim da adolescência ter provocado um baque na minha querida avó, por usar calças e dançar o twist, até ela teve de ceder em levar a Jórgina para Coimbra, se não como tutora, pelo menos como ama de companhia, pois só assim o pai lhe permitiu uma aventura daquelas.
Lá passou cinco anos entre os livros e o quarto, de onde voltou mulher para unir o coração ao filho de um ourives que seguindo as pegadas do progenitor, acabou por fazer a fortuna que melhor amelaçou uma felicidade que ainda hoje dura e que só não terá sido completa por que uma papeira traiçoeira ceifou ao rapaz a possibilidade de reproduzir os seus genes.
Claro que lá caiu o Carmo e a trindade, mas nem as ameaças de expulsão e corte na herança demoveram a vontade da minha tia em não contrair matrimónio. E como na verdade os anos passaram sem que o casal desse o menor sinal de alarme, tudo acabou por ficar bem e todos fizeram de conta que a situação estava conforme às suas crenças e valores.
Nunca ninguém soube explicar estas coisas da tia Engrácia, mas o meu tio João que Deus tem, o último da fratria, costumava defender a ideia que simplesmente era para ali que lhe dava.
“-A Gracinha sempre teve… Quer dizer. Sempre teve aquele seu jeito muito partícula. Então não foi ela que chamou senhor preto ao manequim que estava à entrada da Casa Africana, para lhe perguntar onde era a secção de roupas para homem?”
Minha querida tia Engrácia que agora se reformou e vive em viagens com o seu amor e amante de uma vida, talvez por isso, estando na melhor forma de sempre.
E por vezes é bom sabem que as pessoas, em alguns aspectos, não mudam, pois assim é mais fácil compreendê-las e saber distinguir quando elas nos são amistosas ou não.
Só por isso a senhora Dona Chica Dias, a querida Chiquinha, amiga de sempre, continuou choramingando a sua dor e se agarrou ao pescoço da minha tia, na noite do velório ao cadáver do marido, depois dela ter entrado com o seu semblante grave e de, com lágrimas nos olhos, ter dito em voz alta:
“-Ai querida. Os meus parabéns.”
Sebastião Sorumenho
Alhos Vedros, 2 de Fevereiro de 1996
domingo, 7 de janeiro de 2007
SEM ABRIGO
O Manuel Basculho é um dos sem abrigo de Alhos Vedros.
É sabido que tem um quarteirão de milhares de euros no Banco, mas prefere antes viver na rua do que pagar guarida num desses lares para a 3ª idade.
Hoje, vai-se arrastando de esquina em esquina, de banco em banco de jardim, por lugares semi-ocultos, não sejam demais os olhos que o olhem. Come quase nada. Dorme pelos buracos. Veste umas calças que eram de tom claro. E à sua volta vai-se moldando um ar nauseabundo, insuportável.
Naturalmente, tem dificuldade em impor a sua presença e suportar o olhar dos outros, acabando por comprar alguma pouca comida de fugida e tem até, por isso, dificuldade em arranjar umas garrafitas de vinho. Diz que já não bebe por causa do fígado. Sonha com postas de bacalhau cozido com batatas. Se é que ainda sonha. Eu acho que sim.
Tem 68 anos de idade, mas não recebe reforma alguma. Provavelmente, porque nunca teve capacidade para se deslocar até ao Barreiro, à Segurança Social, meter os papéis, nem teve ninguém que se dispusesse a fazer isso por ele, o que sem dúvida constitui uma missão muito difícil para qualquer humano com falta de asas, como eu.
O Manel nasceu no Pinhal Castanho. Naquele tempo passavam-se carradas de fome, diz, pelas alturas em que o seu pai foi para a Guerra. Foi fazendo de tudo um pouco para sobreviver. Alguns contam que foi pedreiro. E, depois, o Manel é daquelas personagens sobre quem se contam sempre muitas estórias. Uma vez, dizem, ao construir uma casa de banho, esqueceu-se de fazer a porta e ficou fechado lá dentro. Outra vez, ao reconstruir o muro da fábrica do Cabrita, quase a concluir a obra, pediu a alguém que ficasse a segurar o muro, enquanto ele ia beber uns copitos de vinho, não fosse o muro cair.
Nunca se lhe conheceu companheira, ou talvez até tenha sido tudo por um desgosto de amor. Sabe-se que enquanto a mãe viveu, vivia desintegradamente integrado. Agora já nem isso. Há quem diga que é deles o Reino dos Céus. Será?
Luís Santos
FAZER UM JARDIM ... ?
Era uma gaivina: a parte superior das asas preta, todo o dorso branco, pernilonga e de bico estreito e comprido para melhor pescar na lama.
O meu amigo levou-a para casa, tratou-a, deu-lhe de comer, e quando viu que ela estava completamente restabelecida, achou que era chegada a hora de a devolver ao seu habitat natural. E convidou-me para tal empresa.
Foi um grande dia esse, o da libertação da gaivina. Tudo se passou nas marinhas defronte do Cais de Desmantelamento dos Barcos, em Alhos Vedros. Como eu trago bem gravado, desde então, o ar de agradecimento que a gaitinha nos enviou, antes de virar numa esquina de salgadeira e voar para iniciar um renovado ciclo de vida.
Quanto ao “Cais Novo”, o cemitério dos barcos que temos em Alhos Vedros, assinala uma forte presença, ali mesmo junto ao rio, destoando de toda a área natural, ribeirinha, que o cerca. Uma zona de grande beleza natural e de lazer para todos nós que outrora ali íamos passear, pescar, tomar banho, ver os flamingos, as gaitinhas, enfim, aproveitar algumas das boas oportunidades que a natureza nos proporciona. Disse bem, outrora...
Ainda tem o nosso Concelho, refira-se em bom tom, aqui mesmo em frente a Lisboa, um daqueles lugares naturais que constituem um bem escasso cada vez mais raros nos tempos que correm. Portanto, o mais óbvio, será irmos pensando, e depressa, na melhor maneira de proteger toda esta zona ribeirinha, devolvendo-a inteiramente ás populações, evitando a tempo alguns oportunismos menos convenientes que não destruam a beira rio, tantos são os maus exemplos que conhecemos.
Para mim a solução ideal para todo este lugar é simples: limpar, conservar e deixar estar. Quero dizer, prefiro que se deixe tudo o mais natural possível, embora criando algumas condições para uso das pessoas (como circuitos pedestres e de manutenção, praias fluviais, pesca e visitas de estudo ás gaitinhas, entre outras) em substituição de algumas marinhas e viveiros de peixe, já completamente desactivados. Penso que seria melhor solução do que fazer um jardim e semear o resto com prédios como é tão de moda fazer-se. E é sabido que eu gosto muito de jardins, mas deixemo-los para lugares mais apropriados.
Mas se em Alhos Vedros a relação entre gentes e rio estava a ficar complicada, agora, meus amigos, acabaram de chegar os Melos. E num projecto urbanístico rodeado de muitos cuidados e algum mistério, falava o jornal “Público em mais 11.000 habitantes para Alhos Vedros, ali mesmo ao pé do rio. Já pode visitar o andar modelo.
Será que vão haver gaivins que resistam?
SANTOS, Luis - Nós e o Rio. Alhos Vedros: Ed. CEAV, 2006.
ESTÓRIAS DE OUTROS VELHOS
É um espaço literário (já foi dito!).
O que não se disse, é que pretende ser um espaço aberto, livre e despretensioso (se é que esta palavra existe), embora lierário.
Literário, porque se dedica à escrita, mas sem as pretensões descabidas de elitismo ou clubismo. Isto porque as Estórias não têm dono nem estatuto social privilegiado; as estórias do "burgo velho" (Outros Velhos) são património de todos e por isso (repetimos!), não têm dono. Não têm dono, mas têm autores, que desejamos conhecer e publicar. E os autores não têm idade; são jovens e velhos, são apenas e simplesmente as pessoas que têm algo para contar, seja deste tempo ou de outros tempos.
E já agora (não sei se concordam!) com Estórias destas também se faz História. São relatos como estes, que, pertencentes à nossa memória colectiva, podem contribuir em conjunto para a descoberta da nossa identidade cultural (esta agora foi um pouco exagerada, admitimos).
Por isso é um Blog de todos os que têm Estórias para contar e para ficcionar. A verdade pura e dura não existe (provavelmente, não temos a certeza), dai que em nome desse relativismo e em prol da criatividade, as boas estórias têm sempre uma boa dose de invenção. Por isso, conte a(s) sua(s) Estória(s) ou Conto(s) e acrescente o(s) seu(s) "ponto(s)".
Seja bem-vindo!
Publicamos as Vossas Estórias,
que podem ser enviadas para:
- dialogico@clix.pt
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Autores/ Coordenadores do Blog:
- Luís Carlos Santos
- Luís Manuel Mourinha
sábado, 6 de janeiro de 2007
QUINTA DE S. PEDRO
“Vamos pai! Vá… quero ver o barco dos piratas.”
Recordo-me de uma conversa longa e atribulada sobre olhos, navios, e batalhas. Insisti. Queria ver de perto o navio dos piratas.
“Pai, onde está o barco?”. Puxava-lhe pelo braço, lançando-me para a janela já embaciada pelo vapor da minha ansiedade. As dedadas marcavam a direcção misteriosa. Pacientemente pedia-me para esperar: “só mais à frente, nas salinas, antes da GEFA… calma, espera mais um pouco”. Mas não, impossível esperar, já não suportava mais; o desejo era superior a qualquer impedimento.
Indolente, a Camioneta do Cândido Belo rodava ofegante as portadas castanhas do Forno da Cal. Espalhava à volta o verde-claro brilhante da sua presença, abandonando gente e mais gente nas várias paragens, raras mas definitivas. Era hora de trabalho nas fábricas incontáveis da vila de Alhos Vedros. Ao longe, as barcaças do Tejo, ao lado da Corticeira, carregavam-se a cortiça de mais uma jornada. De sacas à cabeça, homens iam e vinham, buscando os fardos pesados, que largavam nas fragatas com destino a Lisboa. “Têm calos como os burros… aqui” – exagerava o pai. “No pescoço ai?” – perguntei-lhe.
No autocarro tudo normal, não fosse a passividade, a esperança e a vontade de chegar ao destino. Concentrados no final da viagem, os viajantes fixavam o olhar em frente, num silêncio compreensível, misturado com o ranger esforçado do motor já decrépito. De olhos fixos na janela, dei um salto acompanhado de um grito de alegria incontida: “olha é ali” e apontei o dedo indicador, erecto, apontava na direcção do objecto desejado. Tinha de sair dali; era preciso ver mesmo lá de perto o barco pirata.
Nesse dia compreendi que um autocarro é um meio e nunca um fim. É um instrumento para chegar e nunca uma espécie de sala de estar. Queria descer, queria chegar. “E tem piratas, não tem pai?” Subi no encosto do banco. Esgueirei-me para tocar à campainha, mas não consegui.
Bom baleando a máquina a tiracolo, o revisor percebeu a impaciência. Fixou o joelho no banco da frente em malabarismos de equilíbrio. Olhou-me e disparou um psst psst consolador. Pensei: nunca hei-de ser revisor. Andar e bombalear num corredor incerto e infindável, não isso não. Libertou nota a nota de vinte escudos, os dedos ocupados e guardou-as metodicamente na pequena mala de couro. Liberto esticou-me a mão oferecendo um “passou bem?”.
- “Tá ali, tas a ver? É aquele!”
- “Não é filho, aquele não é o navio dos piratas. É uma fragata. É um barco grande que leva cortiça para Lisboa.”
O pai continuou, mas ficou uma imagem pouco clara da explicação. Não assimilei na totalidade a lógica do seu discurso. Aliás, acho que nem fez muito sentido; um barco dos altos mares a transportar cortiça. Ele que tudo sabia, como poderia estar enganado? Ficaram muitas dúvidas. Recordo ainda uma série infindável de perguntas, que lancei ofegante: “e o homem que lá está não pode ser um pirata? Porquê? E os homens que andam lá dentro não são aqueles assim… sem um olho?
Para mudar o rumo à conversa, o pai perguntou: “diz-me … a ver se sabes: como se chama um homem sem um olho?”
A máquina a tiracolo apoderava-se da conversa, e soletrava: “za…za-ro-lho”
“É um pirata” – disparei com toda a segurança.
Uma gargalhada efusiva e geral espalhou-se à minha volta. Neste momento já todos os viajantes participavam da minha humilhação. Estiquei a língua em sinal de desaprovação.
Olhei a senhora em frente, redobrada para trás em delírio boquiaberto. Desviei o olhar e repeti confiante: “é pirata, é mesmo, pronto”.
Quis sair sozinho. Saltei do autocarro. Já era crescido, um "homem" capaz de abandonar autocarros de gente grande. Estalei energicamente a porta manual do gigante verde.
Perto do Forno da Cal, o pai explicou: “vamos morar naquele bairro… ali”. Emocionado, estremeci ainda preso à mão protectora. Tudo era novo e surpreendente.
Uma agitação imparável de Galeras aninhavam-se junto à Corticeira: entravam e saiam mulas enjoadas num esforço de carrego. “O que é isto?” – perguntei. Indiferente o pai continuava em direcção à Quinta de S. Pedro. Insisti: “Isto é o quê?” Explicou-me: “ é a Corticeira Ibérica, uma fábrica de Cortiça. Em Alhos Vedros há muitas.”
Recordo-me ainda hoje de ter feito um interrogatório interminável, repleto de porquês, enquanto, puxado pela mão, me extasiava de tanta novidade. Tudo era novo e surpreendente; as paredes brancas de uma cal recente e o vai - vem dos fatos de macaco café- com- leite dos ardinas, emprestavam ao local um colorido fantástico. As mulas angustiadas e sofridas contrastavam com o brilho metálico dos camiões de lata, poucos em número, mas já demarcavam sinais de uma revolução industrial qualquer. De olhos vendados os animais trabalhadores transportavam preguiçosos os fardos quadrangulares, piscando os olhos ao ritmo das moscas oportunistas.
Comparável a esta azafama só mesmo as movimentadas viagens às Festas da Moita. Embarcávamos na Bela Rosa, onde o Xico Valério tinha concentrada toda a frota de carroças gigantes. Em bancos corridos cobertos de mantas coloridas, famílias inteiras assentavam a expectativa da folia prometida. Depois, à ordem do mestre, as Galeras enfileiradas rumavam para as alegrias profanas da Nossa senhora da Boa Viagem. Era divertido! Em agitação, cantava-se ao som do acordeão ou do fado desgarrado. Outros, porém, mendigavam um lugar mais à frente, na Rua das Fábricas, onde, por sorte e vontade conseguiram ainda um espaço generoso no chão de madeira. À frente, o condutor marcava o ritmo em trote de festa, dirigindo uma parelha enfeitada, anunciando já a proximidade das festas prometidas. E todos os anos se repetiam estes Setembros promissores, sempre diferentes, compensadores e deleitosos.
De mãos nos bolsos, olhei-me e senti o orgulho adulto de umas calças à boca de sino e de uma camisa aos quadrados, cuidadosamente preparadas pela minha mãe. Em baixo, o brilho de uns sapatos de verniz. Tudo era novo: casa nova, roupa nova… tudo novo e promissor. Puxado pelo braço, entrámos na Rua da Corça, vizinha da cortiça e sempre visitada pelo rio.
- “Daqui vai-se para Lisboa, não é?” – pergunta retórica, para mostrar que sabia.
- “Sim. Para Lisboa e para todo o lado… é o rio Tejo”.
Ao longe avistavam-se os montes brancos das salinas. A luminosidade da manhã, ainda tímida, dava um tom etéreo à Quinta de S. Pedro. O cheiro a humidade resultado de um misto a terra mole banhada pelo sol, submisso e reflectido nas águas lentas do Tejo, davam o cenário e enchiam os sentidos de uma experiência inesquecível.
Posted by Dialogico Ponto Com