quinta-feira, 31 de maio de 2007

Alhos Vedros: Uma Vila com História


Mesmo ao lado do Moinho de Maré fica o palacete do Cais Velho, se assim o podemos chamar, imóvel adquirido em boa hora pela Autarquia, decerto com a intenção da sua recuperação que, esperamos, não demore muito tempo, porque o estado de degradação já vai avançado e será uma boa oportunidade para dar vida ao património inerte e, assim, ampliar o testemunho do nobre passado histórico que temos entre mãos e que por boas razões urge preservar.
O Moinho de Maré foi revitalizado e inaugurado no dia 25 de Abril passado, de forma a torná-lo um espaço didáctico, sobretudo para as novas gerações, dando a conhecer a importância que tais Moinhos terão tido na economia da região em tempos idos, para lá das outras valências de dinamização cultural e artística que também possui.
Sobre o dito palacete e a sua breve recuperação, constou-nos que pretende a autarquia desenvolver, finalmente, o tal espaço museológico que há tanto tempo ouvimos falar e que nos parece ter agora o espaço ideal para se instalar. Assim sendo, ficaremos então com um belo espaço alargado naquele lugar que, naturalmente, em muito enriquecerá os equipamentos públicos do Concelho e potenciará o enriquecimento cultural da população. Bem hajam.

Carlos Alves

terça-feira, 29 de maio de 2007

Calcetando

Dia após dia, até ao fim, sem sonhar sequer em abandonar o posto de trabalho.

segunda-feira, 28 de maio de 2007

AS NOSSAS ESTÓRIAS

Tirem as Estórias pessoais da gaveta!
Partilhem connosco o que já têm escrito ou que desejam escrever. Lançamos um desafio aos nossos leitores e colaboradores: mandem Estórias sobre / de Alhos Vedros. Mandem as Vossas Estórias, as Vossas recordações, as Vossas experiências.
Ficamos à espera!
O nosso e-Mail para onde podem mandar as Vossas Estórias é o seguinte:

domingo, 27 de maio de 2007

ESTÓRIAS DEALHOS VEDROS


BLOG ESTÓRIAS DE ALHOS VEDROS

Este Bolg é um espaço literário!

Espaço (e tempo) dedicado às "Estórias de Gaveta", que por via digital poderão ascender à categoria (digo, dignidade) de estórias reais, contadas na primeira pessoa.
Mande-nos a sua estória, indique um pseudónimo, ou não, e nós publicamos.
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sexta-feira, 25 de maio de 2007

A propósito do MFI

Toda esta troca de ideias à volta do MFI trouxe-me à ideia uma cartinha que eu escrevi para alguns amigos, fez treze anos, e que depois viria a ter honras de edição. Agora, sem outra intenção que não seja a curiosidade, meto-a aqui por achar que o poema até vale a pena ser lido. Então, divirtam-se!

"Meus caros amigos

Como um amigo me disse que essa coisa dos partidos políticos o chateava um bocado, e como não pude deixar de concordar, penso que
É a hora
de começarmos a pensar, sem pressas, numa nova Ordem em Portugal, para exemplo do mundo. Uma nova Ordem que se preocupe, por exemplo, em trocar essas patetices das guerras e das violentas agressões à natureza, por uma maior qualidade de vida.

Como sabemos que as grandes mudanças não acontecem de um momento para o outro, temos de fazer um pouco como o rei João I quando se veio resguardar de uma peste para Alhos Vedros. Ou seja, pôr as coisas em marcha e esperar calmamente pelos resultados. Para ele foi a conquista de Ceuta, primeiríssima etapa dos Descobrimentos que haveria de virar o mundo ao avesso. Parece que tudo começou ali no Largo da Graça, no Palácio da Graça, onde nasceu e cresceu o Márinho da Graça, irmão do Manuel Tavares.

Ora, não sendo nós reis, nem pessoas de grandes ambições, bem pelo contrário, poderemos perguntar-nos por onde iremos começar, se isto é tudo tão grande e nós somos tão pequeninos.
Eu, por mim, e logo que fosse possível, propunha umas ligeiríssimas alterações ao hino nacional. Assim, nos dois versos em que se diz "ás armas, ás armas" deverá passar a dizer-se "aos sonhos, aos sonhos"; e no último verso onde se diz "contra os canhões marchar, marchar", deverá pôr-se "contra os canhões vamos votar".

O que é que vocês acham?"

15/5/94

Luis Santos
in, Do Convento. Setúbal: Livraria Uni Verso Ed., 1996.

quinta-feira, 24 de maio de 2007



Lançamento do M.F.I. (Movimento das Forças Interrogativas) para breve no Blog: "Largo da graça", que pode ser visitado em:

sexta-feira, 18 de maio de 2007

Alhos Vedros antigamente



Pensei em reconstruir um mapa antigo de Alhos Vedros da parte que eu mais conhecia e frequentava na minha infância.
As recordações eram poucas mas conforme ia reconstruindo as linhas no mapa, as memórias surgiam espontaneamente. Por fim parecia que estava vivendo tantos momentos inesquecíveis, aqueles caminhos percorridos vezes sem conta, as arvores, os recantos, as casas, o cheiro, o vento na cara.
Há mais ou menos 35 anos atrás, era assim o meu mundo pequenino no grande universo que era Alhos Vedros:

Bairro Gouveia – o local da minha infância e criação de muitos amigos.
Escola primária – aqui conheci amigos, namoradas, brincadeiras intermináveis e algumas reguadas.
Tanque do Anastácio – a “piscina” do bairro, o moinho de vento, jogos e beijos escondidos.
Quinta do Anastácio – a ida á fruta, a passarada, o charco dos cágados.
Poço – aventura ao fundo do poço, só para os mais destemidos.
Pinhal – tantas histórias, acontecimentos, um mundo de proezas fantásticas.
Sobreiros – os ninhos nas árvores, descobertas da natureza.
Pinhal – o pinhal até ao bairro “Susano”, um caminho pelo meio longo e assustadiço.
Campo da forca (areal) – local histórico, encontro de amigos e brincadeiras, buracos na areia e corridas nas noites de verão.
Seara de trigo – jogar ás escondidas no meio do trigo e “ficar” escondido.
Arroteias – viagens a pé junto á estrada ás escuras para ir ás festas.
Antiga fábrica – entrar furtivamente, descobertas, sair á pressa.
Passagem de nível – a entrada para o lado de lá, armazéns, a taberna da esquina.
Caminho para as Vinhas das pedras – Um belo caminho junto á linha, um trilho muito apetecido.
Casas velhas – mais umas aventuras na penumbra.
Estrada nacional – a via mais importante da vila.
Sapal – os caranguejos, as aves, os caminhos envolventes.
Salinas – recordações dos outros tempos.
E muito mais…

Cada uma destas partes têm muitas histórias para contar, algumas voltaram á memória, outras já esquecidas, jazem naquele lugar.

Sugeria a todos vocês, para fazer o vosso mapa, os locais mais significativos da vossa infância, aqueles cantinhos de experiências memoráveis.

E como era Alhos Vedros há 50, 60 anos atrás?

terça-feira, 15 de maio de 2007

Uma Vila com História...


O pelourinho, monumento manuelino, é um símbolo de poder e jurisdição que Alhos Vedros tinha sobre as terras vizinhas. Isso mesmo está representado em carta de foral que o Rei D. Manuel I atribuiu a Alhos Vedros, no ano de 1514.
Nesta altura Alhos Vedros integrava em si os actuais Concelhos do Barreiro e da Moita, sendo os seus limites territoriais constituídos pelos Concelhos de Coina, Aldeia Galega (Montijo) e Palmela.
A pouco e pouco, alguns destes territórios foram-se autonomizando. Primeiro o Barreiro, em 1521 que, mais tarde, haveria de levar consigo Palhais, Telha e Lavradio. Em 1861, constitui-se o Concelho da Moita e vão também as terras que hoje designamos por Gaio, Rosário e Sarilhos Pequenos.
Refira-se que o Concelho da Moita só se consolida definitivamente, em 1898, às portas do Séc. XX, por ter sido extinto em 1895, tendo Alhos Vedros, então, passado a pertencer ao Concelho do Barreiro.
Por fim, a Baixa da Banheira, o seu filho mais novo, deixa a casa paterna em 1967, desanexando-se do território de Alhos Vedros. E fiquemos por aqui que depois se contará a história dos netos, como é, por exemplo, o caso do Vale da Amoreira.
Respeito ancestral é, pois, o que se pede para esta vila milenar que muitas estórias tem para contar. Daqui a sete anos, em 2014, estaremos a comemorar os 500 anos da atribuição do foral. Esperemos que quando lá chegarmos, tenhamos muitos e bons motivos para relembrar o passado honroso desta vila. Esta é, decerto, uma boa altura para começarmos a pensar no assunto, antes que se faça tarde.
Luis Santos

Árvores de Alhos Vedros

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domingo, 13 de maio de 2007

Intimidades


OS LIMITES DO UNIVERSO

É fácil de ver, eu fui um menino de família, ali criadinho entre os quintais e a praça vizinha da porta da residência, sempre sob o olhar de alguém e sem o mínimo de laivo de ousadia para andarilhar muito além do raio de uma corrida. Eu até cedo experimentei as deslocações geográficas; meus pais faziam época balnear em Sesimbra e possibilitavam-nos mais vadiagens em outras estações do ano, ao que devo acrescentar as idas para as termas, em Monte Real e mais tarde no Luso, com isso materializando a diversidade e grandeza do território. Logicamente após ter aprendido a ler e a escrever passei a ter oportunidade de contactar com a vastidão terrestre através de atlas e mapas e em outros livros e, desde então, ganhei definitivamente a consciência da pequenez relativa do meio em que cresci. Mas até à idade dos sete anos, quando entrei naquilo que então se chamava a escola primária, fora do quarteirão circunvizinho à casa onde vivia, apenas saía dali pela mão dos mais velhos. Pelo meu pé, o ir até meio de uma rua que do largo partia na direcção do que para mim era desconhecido, o ir até meio dessa rua, precisamente até ao ponto em que ela se esquinava para se vir ligar a outra, sua paralela, isso era uma aventura que eu vivia com o trepidar no coração de quem sente uma aflição pela barriga parte para tolher as pernas. E mal aí chegado voltava para trás; um portão de chapa ondulada, pintado de encarnado, que fazia a frente do entroncamento, era esse o marco do mundo meu conhecido e, não sei porquê, olhava a continuação da rua e o que se avistava do que se lhe seguia como uma espécie de terra de ninguém, imaginando-a selvagem e insegura.
São as transformações coisa curiosa de se observar ainda que se discuta em que pode consistir o progresso e se muitas delas efectivam ou não aquele. Não quero aqui entrar em discussões teóricas, mas apenas dizer que sempre gostei de olhar aquilo que se ia alterando à minha volta. E, tal como acontece à realidade envolvente, também as pessoas se modificam. Creio até que a primeira mudança acontece em nós, nos olhos que lançamos sobre o que nos rodeia e que vamos assimilando de maneira diversa à medida que vamos crescendo. No entanto, a cultura é, por natureza, dinâmica, e mesmo as paisagens que mais aparentam imutabilidade sofrem, de facto, os mais diversos acréscimos ou subtracções, bem como variadíssimas transmutações.
Eu cresci naquilo que podemos designar como uma pequena localidade, uma comunidade cujo núcleo urbano não chegava as duas mil pessoas que, praticamente, se conheciam todas entre si. Cheguei a disputar a bola em plena estrada que ligava a Vila às outras e actualmente existe um nó rodoviário que tirou o trânsito do centro, em cujo viaduto e semáforos se assiste a horas de ponta e a um tráfego intenso que se prolonga pela madrugada. Às vezes, quando estou sentado e ocioso numa esplanada que agora se estende no largo dos meus calções, em frente do coreto, ocorrem-me à memória os assobios das andorinhas, nos fins de tarde. Mas o que mais radicalmente se modificou, talvez tenha sido o facto de estar ali com a minha esposa ou qualquer outra amiga. No tempo em que era miúdo, as mulheres não frequentavam os cafés e muito menos se sentavam à mesa com os homens. A par desta, a remodelação da geografia perfaz o fim do mundo da minha infância, a ponto de hoje, ainda que muitas casas sejam as mesmas, eu tenha dificuldade no reconhecimento dos sítios.
E o engraçado é que eu moro num lugar que para mim estava nas paragens do fim do mundo. Na época em que entrei para a escola, à direita do edifício estilo Estado Novo começava a lezíria domada pelas quintas e as salinas e viveiros de peixe, na beira-rio. Agra sei-o, mas naquele primeiro dia em que fui levado pela mão do pai até aos degraus de entrada, naquelas primeiras semanas, eu olhava o caminho entre valados e lá voltava a atribuir-lhe o mistério de uma superfície inexplorada. Lembro-me até como me arrepiava só de pensar que por ali podiam andar homens maus com facas e paus.
Era a idade em que eu, de ver imagens das estrelas e do cosmos em algum livro e revista, imaginava a imensidão do Universo e perguntava-me se nos seus limites não haveria nenhum portão encarnado. Não, não, portão, fosse de que cor fosse, não poderia ser; o portão era feito pelas pessoas e nesses limites não havia ninguém. Mas pensava que a assinalar o fim de tudo deveria haver uma espécie de pórtico, cujas formas me intrigavam e que uns dias fantasiava de uma maneira e noutros dias de modo diferente. Nem eu sei quantas não terão sido as noites em que eu adormeci com aquelas reflexões.
E quem seria o construtor de tal pórtico?

Portel, 27 de Abril de 1998

sábado, 12 de maio de 2007

BOLG: ESTÓRIAS DE ALHOS VEDROS


Corre, faz, beija, mexe, elabora, vê ou escreve!
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ESTORIAS DE ALHOS VEDROS

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domingo, 6 de maio de 2007

O Hospital


"Alhos Vedros fundara o seu hospício em 1500, logo após a criação da Misericórdia de Lisboa em 1498 pela viúva de D. João II, a Rainha D. Leonor." (in, Carlos F. Póvoa Alves, Subsídios para a História de Alhos Vedros, p.34)

"Lá se foi o Hospital...
Lá se foi o Hospital Concelhio de Alhos Vedros, creio que definitivamente, e com ele o Serviço de Atendimento Permanente (24 horas por dia). Agora é só das 10h às 22h e, se acaso, adoecer fora do horário estabelecido procure assistência noutro lado, porque aqui acabou-se!

Toda a gente está contra: o poder autárquico, a Santa Casa da Misericórdia, a Comissão de Utentes, a população, eu próprio, e até a Administração Regional de Saúde tem pena, mas a decisão a todos ultrapassa.

Uma coisa é certa, Alhos Vedros está mais pobre (...) Cada um que tire as suas conclusões. Nós e os nossos filhos merecemos mais e melhor."(in, SANTOS, Luis Carlos - Estórias de Cá e de Lá. Alhos Vedros: Ed. Casa de Estudos, Fev. 2006.)

Este textinho que está em cima, foi escrito pouco tempo depois do encerramento do Hospital Concelhio de Alhos Vedros, publicado então no jornal "O Rio". Depois de ter ido o Hospital, já foi também o Serviço de Atendimento Permanente (24h), que foi substituído por atendimento entre as 10h e as 22h, no Centro de Saúde, mas que agora já só funciona entre as 16h e as 22h. Já se ouve falar, aqui e ali, no encerramento definitivo.

Face a esta rápida e progressiva degradação dos serviços de saúde no Concelho ou, pelo menos, em Alhos Vedros, não se conhecem tomadas de posição política, nem do poder local nem da oposição. A Comissão de Utentes do Hospital que então lutou contra o seu encerramento, ao que parece, extinguiu-se, e a população vai deixando andar e quando acordar será tarde.

Quer dizer, em Alhos Vedros, os serviços de saúde vão com o património histórico, na maré...

Luis Santos

"Qual a origem de Alhos Vedros?"

«Vedros» deriva da palavra latina «Vetus» que evoluindo através dos séculos, deu origem ao nosso vocábulo «Velho» e «Vedros». Assim, «Velhos» ou «Vedros», o significado é idêntico. Até aqui não há dúvidas!

As dificuldades surgem com a palavra «Alhos». Querem os entendidos, que tenham vindo de «Alius», também palavra latina, que significa «outro» (de muitos) em Português. Porquê então «Alius Vetus», nome dao a esta povoação?

Os historiadores têm discutido o assunto, sem contudo terem chegado a uma conclusão, por todos aceite. Seja como fôr, Alhos Vedros «sabe» a latim. Foi sem dúvida povoação a que os romanos deram o nome e de certo até fundada por eles, provavelmente no Séc. I a.C.. A sua actividade principal teria sido a exploração do sal, que faziam transportar para Roma ou utilizada na salga do peixe.(…)

Em 711 da nossa era, surgem com todo o ímpeto os árabes vindos do norte de África; dois anos depois, tinham conquistado quase toda a Península. Esta Terra tornou-se, assim, uma possessão moura.

Após alguns séculos, surge o esforço enorme da Reconquista Cristã. A bravura de Afonso Henriques, conquistador de Palmela, empurra para o Sul os árabes desas regiões, voltando Alhos Vedros novamente à dominação cristã. Começa, assim, uma nova era para a antiga povoação romana, com seus progressos e retrocessos, tão comuns na história dos homens.

Que daqui em diante só conheça o progresso…”

ALVES, Carlos F. Póvoa - Subsídios para a História de Alhos Vedros. Edição do autor, 1992, p.76.

A Palmeira dos Mil Anos

“Esta vila por ser muito antiga e ter sido populosa se diz que tem a preeminência de ter voto em cortes, cuja verdade constará de crónicas ou livros em que toca este ponto. De antiguidades de memória se pode ter por admiração o conservar-se no quintal da Casa da Misericórdia, uma palmeira grossa e mais alta que a dita Igreja da Misericórdia e suposto esteja estalada ou rendida com as inclemêmcias das tormentas se lhe acudiu com uma cinta de ferro para perpetuar mais a sua memória. Não se sabe ao certo a idade desta árvore de que se diz ser do princípio da fundação da Vila e outros dizem que tem mil e tantos anos o que bem poderá ser; mas dado que tenha oito ou nove séculos sempre é admiração e antiguidade digna de memórias(…).”

Alves, Carlos F. Póvoa - Subsídios para a História de Alhos Vedros. Edição do autor, 1992.

Sobre a lenda da Srª dos Anjos

(…)Deixados, porém, os inumeráveis milagres e benefícios particulares que a Senhora dos Anjos tem obrado aos seus fiéis devotos, vamos ao principal, público e notório que fez em dia de Ramos, tão celebrado na História a tradição por ser prodígio de eterna memória em um tiunfo contra os mouros no ano de 1148, pela Vitória, que os moradores desta Vila alcançaram contra os ditos infiéis; por cuja causa ainda hoje se celebra e celebrará no dito dia festas de acção de graças à Senhora dos Anjos com Missa cantada (…).

Vem a ser o caso em que tendo já conquistado Lisboa o nosso primeiro Monarca D. Afonso Henriques no ano de 1147, ficaram respirando na sua liberdade os católicos nestes distritos, que com grande prazer cumpriam com os preceitos e ofícios Divinos, ocupando ainda os Mouros as Vilas de Palmela e Sesimbra. Sucedeu logo no ano seguinte de 1148 que os ditos Mouros de Palmela e seus distritos, quiseram vir com um grande exército a vingar-se dos Cristãos para os cativar, saquear e roubar, para o que não podiam fazer melhor emprego, do que nesta Vila onde estavam muitos e lhes custar pouco a empresa por ser a terra aberta, sem muros, nem fortalezas; e não era vão o seu pensamento, senão fora a Torre fortíssima de Maria Santíssima que tinham os cristãos nesta Vila(…).

Com efeito em Dia de Ramos, do dito ano, pela manhã, vieram os Mouros à dita empresa, a tempo em que se achavam os cristãos na Igreja Matriz, nos ofícios Divinos, tendo-se já celebrado o triunfo de Cristo com os ramos e palmas bentas mas ainda com a procissão do dito triunfo, e tendo notícia deste rebate e invasão sairam logo os cavaleiros e pessoas distintas que podiam tomar armas, e o povo só armado com os ramos e palmas para seguirem a fortuna que Deus lhes quisesse dar, acompanhando os valorosos e invocando sempre por Maria Santíssima, Rainha dos Anjos, ficando a mais gente feminina e pueril na dita Igreja e adro com lágrimas e súplicas recorrendo a Maria santíssima. Eis que logo que sairam, avistaram aquela multidão de bárbaros e fazendo-lhes frente, principiando a pelejar com grande desbarato neles, reconheceram logo ou lhes pareceu que os cristãos tinham maiores forças ou estavam aparelhados com grande poder para este conflito, e com estes os rompessem, foi tal o horror e confusão que entrou nos mouros por verem a sua mortandade e maior poder dos cristãos, que cheios de pavor foram dando as costas para salvarem as vidas. Com toda a pressa fugiram para as fortalezas donde vieram.”

“Ó Divina que neste conflito bem mostrastes o Vosso poder e a Vossa fortaleza, com a qual os vossos filhos se defenderam e por Vossa conta tomastes o desempenho fazendo com que os moradores de Alhos Vedros, conseguissem esta vitória, tendo por bom anúncio quando sairam ao campo levarem consigo as palmas, sendo Vós a Fortaleza e dando-lhes o socorro; cada Ramo foi um triunfo, cada Palma uma Vitória.”

ALVES, Carlos F. Póvoa - Subsídios para a História de Alhos Vedros. Edição do autor, 1992.

sexta-feira, 4 de maio de 2007

Intimidades


O DESPERTADOR

Ainda que não seja uma lei universal, hoje em dia já são raros os pais que se intrometem nas escolhas amorosas dos filhos e é vulgar que estes se limitem a comunicar a decisão quanto ao laço, absurdo que é, para tantos jovens, a ideia de pedirem o consentimento parental para que se cambiem as delícias de um namoro. Nem sempre foi assim, mesmo nestas latitudes em que as novas atitudes ganharam fóruns de cidade; houve um tempo em que os mais novos escutavam ou, se quisermos, eram obrigados a escutar os mais velhos, quiçá se sinceramente anuindo e respeitando os seus pontos de vista, sendo certo e sabido os dramas e dramas a que as inúmeras desobediências tinham conduzido.
Eu não estou nem quero estar a fazer o julgamento das situações, a pretender que fosse melhor como era, por isso lamentando aquilo que se tenha perdido, ou, ao contrário, a tomar a defesa da realidade actual. Nem isso é importante para o que me traz aqui. Provavelmente, como em tantas coisas deste mundo, ambos os casos terão os seus aspectos positivos e negativos e se os catarmos bem catados –e sempre de cabeça fria e aberta- em qualquer deles encontraremos ensinamentos que nos poderão ser úteis para a definição das nossas próprias opções e consequentes expressões. Enfim, a isto se chama o senso comum. Pela minha parte, limito-me à constatação, dou por irrelevante a opinião e, aqui, pouco ou nada me interessam outras indagações.
Fácil é adivinhar, eram meus avós gentes de outra época. Diz minha mãe que a minha avó não era mulher de impor um noivado aos filhos e tão só razões que ela nunca conseguiu descortinar a levariam a propor e a apoiar a proibição de uma determinada preferência que, diga-se com justiça, de facto, jamais sucedeu. Mas é claro que não abdicava da sua colherada e tanto lhe acontecia mofar da cara e dos ares de uma hipotética candidatura, como não se coibia de opinar, aos mais diversos níveis, em tudo o que tivesse a ver com o futuro dos que lhe tinham mamado do peito. E a todos repetiu que se preocupassem em encontrar alguém que fosse trabalhador e poupado.
Imaginem, mulher que personificava a genica, pau para manter em espelho uma casa com uma ninhada de sete, a quem nunca faltou a inspecção para que tudo estivesse bem e ainda com tempo e espaço mental para orientar, ao pormenor, as canseiras da parcela gastronómica e dormitória de um restaurante pensão que o avô possuía e era único na Vila. A todos punha num virote que ela mais não dava que as ordens e depois tinha aquela arte feiticeira de aparecer sempre que a manchinha de pó ainda permanecia sobre um móvel qualquer. E com o marido partilhava as contas e as preocupações e, em consonância, se resguardava da cobiça alheia, fazendo eco de uma narrativa que em muito diminuía os cabedais que, em lugar secreto, iam guardando.
Perante alguém assim, era obra querer contrariar-lhe os intentos ou a maneira como ela lia os sinais do quotidiano.
Lá diz o povo que santos da casa não fazem milagres, não é? Na História há o equivalente e nas histórias das famílias também. É que os anais registam os nomes e façanhas dos comandantes, mas quase sempre calam a memória do imediato e isto para nem chegar a falar do soldado raso. Pois bem, a minha avó tinha o seu braço direito em quem, a partir de uma certa idade, delegava as responsabilidades, se não as mais importantes, pelo menos as mais árduas e entediantes. Era a minha tia Carolina, a quem a vida se encarregou de atirar para o papel de filha que permanece para companhia e amparo dos pais.
Eu não sei explicar o que possa ter originado semelhante fado, até por causa da beleza dessa minha tia que, segundo os olhos de minha mãe, a muitos trouxera pelo beicinho e a todos cerceara sequer as vias para a mais leve das aproximações. Aconteceu, é o que me basta. Mas estou em crer que em muito terá contribuído a tal omnipotência materna de que falei. É que a minha tia Carolina era tímida tanto que, já anosa, ainda lhe testemunhei o recato dos sorrisinhos atrás da palma da mão direita. De toda a prole, era ela quem mais guardava o silêncio em face das oratórias superiores e era ela a primeira a corar com as brincadeiras e ditos dos irmãos, bem como dela partiam os avisos que constituíam a presença da autoridade.
Cronos tratou do resto. Qual a rosa que não murcha e perde o brilho, mesmo que mantenha o perfume por muito e muito tempo? A minha tia não fugiu à lei e com isso deixou escapar a condição casadoira, dela se dizendo o desperdício que era um partido tão rico e encantador.
Quando a minha avó faleceu tinha ela pouco mais de cinquenta anos de idade e um pai e um restaurante para cuidar –a pensão encerrara há uma boa mão cheia de translações.
Talvez tenha sido isso que a levou a achar que tinha chegado a hora de contrair matrimónio e se decidiu melhor o fez, sem dar atenção a quem quer que fosse.
O eleito foi aquele que veio a ser o meu tio Tomás, um operário electricista que, de uma fábrica da CUF, passou a trabalhar em empreitadas por conta própria para a construção civil de que derivaram as actividades e as empresas com que se afirmou no ramo.
Ele teve a particularidade de apenas uma vez na vida ter chegado atrasado ao trabalho. Foi depois de uma noite em que, não interessa porquê, eles tiveram que dormir em casa dos meus pais. Simplesmente aconteceu que o despertador que tinham trazido, por motivos óbvios, naquela manhã não tocou.
“-Não tem importância, podia ser pior.” –Começou ele com o seu compasso de eterna calmaria, enquanto se preparava para buscar o dever. “-O despertador estranhou a mesa-de-cabeceira.”

Portel, 24 de Abril de 1998

Foto de Carlos Alves

quarta-feira, 2 de maio de 2007

Viagem às amoras

Estávamos em 1972 ou 1973 quando um de nós , eu, Zé Augusto ou Toninho Careca ( ao invés de muitos , hoje com uma vasta cabeleira) , teve a infeliz ideia, de ir ás amoras a umas silvas que haviam na curva a seguir ás últimas casas do Bairro Chico Pires, para alguns a “Jamaica”, no sentido Bairro Gouveia-Cabeço Verde.
Bicicletas duas, nós três. O Zé Augusto na pasteleira do pai, e eu, com o Toninho sentado no quadro da especial de corrida, comprada pelo Srº Américo Pinto, pois com o seu belo carrinho tinha atropelado à frente da sua tasca aquela com que o meu pai tinha ganho a volta ao Algarve.
Pelo caminho, o Toninho ia-se queixando das pernas, e como eu era o único que sabia o local das silvas, respondia-lhe:
- Tem calma que estamos a chegar.
Após a sua última queixa, a bicicleta ganhou embalagem na ligeira descida em direcção á “Jamaica”. O Toninho tão aflito que ia coloca o pé na roda da frente, qual pássaro voador, saio num voo picado da bike por cima dele, indo aterrar mais á frente de nariz por não ter tido tempo de pôr as mãos á frente. Ele aterrou logo, só que foi de cabeça, não tendo os reflexos que se impunham de guarda redes da sua estirpe. Se fosse numa futebolada era desonrado de tudo. Atordoado, não sabia a quantas andava, preocupando-se exclusivamente com o sapato então perdido, depois do” entalanço” nos raios .
Na altura os carros eram poucos naquela estrada, até que apareceu um mini que ao parar, o condutor se apercebeu da gravidade da situação. Transportado ao Hospital de Alhos Vedros, que tanta saudade nos deixa e lembrança dos tempos em que fazíamos a correr em sua direcção, o som da sirene da ambulância depois de mais uma cabeça partida na guerra da pedrada (pedra real).
Entretanto, eu e o Zé a “penantes” porque a minha bike tinha o garfo partido devido ao facto de na altura do acidente a roda da frente ter saído do encaixe, fazendo o garfo bater no alcatrão.
Ao chegarmos ao Hospital qual é o nosso espanto! O Toninho tinha ido de urgência para S.José. Ficámos destroçados.
Malditas amoras.

JOMAREDI