quinta-feira, 31 de julho de 2008


"Valeu a pena?..."

"Vós, diz Cristo, Senhor nosso, falando com os pregadores, sois o sal da terra: e chama sal da terra, porque quer que façam na terra o que faz o sal. O efeito do sal é impedir a corrupção; mas quando a terra se vê tão corrupta como está a nossa, havendo tantos nela que têm oficio de sal, qual será, ou qual pode ser a causa desta corrupção? Ou é porque o sal não salga, ou que a terra se não deixa salgar. Ou é porque o sal não salga, e os pregadores não pregam a verdadeira doutrina; ou porque a terra se não deixa salgar, e os ouvintes, sendo verdadeira a doutrina que lhes dão, a não querem receber. Ou é porque o sal não salga, e os pregadores dizem uma cousa e fazem outra; ou porque a terra se não deixa salgar, e os ouvintes querem antes imitar o que eles fazem, que fazer o que dizem."

Início do Sermão de Sto. António aos Peixes


1.
Profetizar que Portugal vai construir na Terra o V Império, porque já tinham havido Quatro, depois de ele já estar construído, não tem, digamos, nada de muito especial, não fora o facto de ter sido declarado ao arrepio da Santa Inquisição.

Por outro lado, ser amigo dos índios escravos e protegê-los contra o poder instituído dos colonos, naquele tempo, parece-nos sem dúvida coisa de um homem de coragem e de coerência de princípios, capaz de arriscar a própria vida na defesa dos direitos dos mais desfavorecidos.
Sabemos como é difícil hoje aos homens cultos dizerem aos nossos governantes que é uma vergonha nacional, a maioria dos imigrantes a trabalhar em Portugal serem sonegados de parte significativa dos seus direitos laborais, nas horas de trabalho, no vencimento, na segurança social, relembrando tempos passados. Mas é evidente que isto dito hoje, pelo menos nos países democráticos, não tem paralelo com aqueles outros tempos...

Em todos os tempos existiram e existirão pessoas de coragem. Veladas na discrição da vida ou expostas pelo "status quo", simples ou complexas, pobres ou faustas. A justiça veste múltiplas indumentárias, mas desnudada profere decisões librianas, lembrando que ainda existe verdade no mundo. A excelência da figura ímpar do P. António Vieira é a mensagem, a voz de coragem, a intemporalidade manifesta pelo seu espírito de igualdade e dignidade, o exemplo. E porque enquadrado num espírito religioso, entendeu que não existe "um" bem nem existe "um" mal. Apesar da visão "leibniziana" de que este é o melhor dos mundos possíveis, podemos construir sobre os insucessos, os desalentos ou as tragédias um mundo melhor. A beleza do amor será certamente a mais sólida fundamentação.

Parece que os Portugueses (de hoje) estão bem longe de navegação espiritual. No entanto, temos os portugueses dos séculos XIII e XIV inscritos nas viagens para os Arquétipos do Amor.
Ilhas de um Imperador em estado de Criança. Camões, Vieira, Pessoa e Agostinho são Mestres das rotas deste intemporal que subsiste em nós.
Eleitos somos pelo paradoxo e pelo imprevisível. Se calhar, no conjunto encerramos um koan do Zen Budismo. Há bem pouco tempo apercebi-me de que o riso, o trovão, a música, a luz do sol e a meditação que faço me desvelam memórias e identidades... Descobri por exemplo na voz de Ana Moura, no Sevdalim da Turquia e no lindo povo do Curdistão algo de imenso que brilha.
É na rota deste brilho que (estão) islâmicos, cristãos, budistas e em especial os judeus de israel, que gostaria imensamente tivéssemos tempos e fórmulas para sulcar. Depois de tão perto e tão longe -, A LUZ INTERIOR SERÁ A NOSSA MAIS PROFUNDA IDENTIDADE?
Não vale a pena o cansaço.

2.
«O que é o “Mito do Quinto Império”?» Estou em crer que não se trata de nada relacionado com o imperialismo... não será decerto, nenhuma sequência de impérios (tipo, houve o 1º... depois o 2º...etc...até que se chegou ao 5º).

Decerto será algo mais, digamos, transcendental. Algo do foro da evolução de cada um, algo até muito simples, como uma espécie de comunhão com a Natureza, os seus elementos, ou pelo menos o reconhecimento e aceitação de que fazemos parte desse todo.

O Mito do Quinto Império foi uma ideia desenvolvida pelo Padre António Vieira que o dava como um desígnio de Portugal e dos Portugueses que muito resumidamente resumi-lo-ei como um Império de Amor e de Serviço.

Porém, continuo a acreditar que o chamado 5º Império é algo mais profundo.
Também estou convencido que é algo muito mais antigo que a época de António Vieira.
Acho que ele apenas "lembrou" determinadas verdades, aplicando-as a Portugal (e aos portugueses), sendo aquelas, intemporais, e aplicadas a toda a Humanidade. O chamado 5º Império, é apenas uma maneira de (re)velar outros conhecimentos.

«...Algo mais antigo que a época do Vieira? Quanto? Que outras verdades? Que outros conhecimentos?»

Bem... tendo em conta que nos estamos a referir a António Vieira, um padre, relembro que na mandala cristã, os quatro animais do Apocalipse estão simbolizados pelo Leão, pela Águia, pelo Touro, e por um Homem com um livro. No centro dessa representação, está um cordeiro, o Agnus Dei. Passando para outro "patamar" poder-se-á relacionar estes animais com as quatro virtudes ditas por Zoroastro (ou Zarathrusta ...como preferirem). Assim, o Homem com o livro seria o Saber (o intelecto humano), o Leão com o Poder, a Águia com o Ousar, e o Touro com o Calar (força concentrada do touro; Estes quatro passos, seriam os necessários para a realização da Opus - O Agnus.
Porém, o número cinco, é um algarismo muito particular na tradição mítica portuguesa...talvez seja coincidência, ou sincronia (segundo Jung), que os escudetes do nosso brasão sejam cinco. Este cinco - o quinto elemento - poderá ser a consciência da alma imortal, o Ego imortal, a mente espiritual, sendo que os outros quatro, o quaternário da personalidade: o corpo físico, o corpo energético, o psíquico, e a mente concreta.
Poderá assim tomar algum sentido a afirmação de Fernando Pessoa «No Quinto Império haverá a reunião das duas forças separadas há muito, mas há muito aproximando-se: o lado esquerdo da sabedoria - ou seja a ciência, o raciocínio, a especulação intelectual; e o seu lado direito - ou seja o conhecimento oculto, a intuição, a especulação mística e cabalística.»
Relembro também o significado que possuem as cruzes, a sua relação com o cosmos, ou pura e simplesmente cada um dos seus braços (apontando para os 4 pontos cardeais), mas harmonizando os quatro elementos da Natureza...sendo o quinto elemento, o motor imóvel, a raiz do movimento...
Talvez não tenha sido por acaso que os Templários escolheram aquela cruz como símbolo. O interessante é que para fazer aquela cruz, geometricamente dum modo correcto, são necessários 5 círculos em interligação, sendo que o círculo central é raramente percepcionado, mas ele está lá!Teriam alguma razão Platão e Pitágoras ao vedarem acesso às Academias, quem não entendesse de Geometria.
Talvez o Padre António Vieira apenas estivesse a "preparar" as mentes para que as pessoas de então se consciencializassem do Novo mundo que os "descobrimentos" estavam a abrir.
Enfim, qual é a verdade, e o que é a verdade.... Puras especulações, embora sejam excelentes exercícios de intelecto o que fazemos na vã tentativa de a alcançar (a verdade).

TUDO VALE A PENA, SE A ALMA NÂO É PEQUENA.

Texto colectivo que se elaborou tendo como centro da reflexão o Padre António Vieira, dinamizado pelo Movimento das Forças Interrogativas, no blogue Estórias de Alhos, Uma Confraria da Liberdade (http://estoriasdeoutrosvelhos.blogspot.com ), decorria o mês de Outubro de 2007 (e agora proposto para publicação no segundo número da Revista "Nova ÁGUIA").


(postagem de Luis Santos)

quarta-feira, 30 de julho de 2008

ESTÓRIAS

Esta foi uma das muitas aventuras, que vivi na tropa, com os meus companheiros d’armas. Na altura em que cumpri o serviço militar, vivia no Barreiro. A função que desempenhei foi a de enfermeiro. Eu e o “Rato” costumávamos ligar a sirene, a sinalizar urgência, para chegarmos mais rápido à Costa da Caparica e podermos tomar uns refrescantes banhos, enquanto “galávamos” as miúdas e tentávamos meter conversa com elas.Nesta noite fomos fazer um serviço diferente, do que era habitual. Fomos buscar à sua residência, o Sargento-ajudante, para o levar a tratamento. No caminho, o “Rato”, um verdadeiro amigo dos copos, resolveu dar boleia a duas raparigas, que se encontravam no final da Av. Da Liberdade, conhecida na época, pela tipologia da clientela nocturna.Eu fartei-me de o avisar, sobre o risco de as transportar, para a unidade militar, face ao castigo em que podíamos incorrer. Mas ele era teimoso e ainda nos chateámos por causa disso. Eu bem o avisei que elas eram esquisitas, mas O “Rato” não quis saber. Só me perguntava onde era o meu contentor do lixo.Perante a insistência, lá concordei que as podíamos levar lá atrás, cobertas com um lençol, em cima da maca, simulando um doente em estado grave. Entretanto, naturalmente, tivemos a anuência do Sargento-ajudante Abrantes.Chegados ao quartel o Rato desapareceu com as mulheres, para a casa dos motoristas, onde dormia. Mas antes de desaparecer ainda me pediu para informar um colega, que havia um petisco único, à sua espera, na casa do motorista. Eu “dei de frosques”, para o bar, pois não queria arranjar problemas para o meu lado.No percurso até ao bar encontrei o jovem “Langão” (nome de guerra, do homem mais rápido do quartel), excelente pintor e um mestre nas artes da sesta. Este era residente em Alhos Vedros e natural da Baixa da Banheira. Transmiti-lhe o convite do “Rato” e fui até ao bar beber uns copos e jogar à sueca.Quando lá cheguei, estava lá o Cruz, benfiquista do Teixoso, que falava assobiando. Bebemos uns copos, jogamos uma sueca, mas eu nunca lhe fiz referência ao assunto das miúdas, quanto menos companheiros soubessem melhor.Cerca de uma hora depois, subitamente surge à porta do bar, o “Langão” aos gritos. Vinha a correr todo esbaforido, descomposto, a camisa cheia de marcas de batom, completamente em pânico e a gritar:- É pá, acudam. Não vão acreditar.- Então, “Langão”? O que é que se passa? O que é que te aconteceu? Parece que vistes alguma coisa do outro mundo!E escusado será dizer que fazia um grande esforço, para não me desmanchar a rir, devido ao seu aspecto.- Não vais acreditar! As tipas têm três pernas, pá. O “Rato” não sabe o que fazer, vai para lá uma gritaria! Venham cá acudir.Morto de rir, mas já preocupado, fui ver o que se passava com o “Rato” e as mulheres. Dei com ele meio embriagado, deitado no chão e nada de mulheres, homens, ou sei lá o que era, ali pelas imediações. Demos umas lambadas ao “Rato”, na tentativa de o despertar e perguntámos, o que lhe tinha acontecido e onde é que elas estavam. Mas ele só dizia:- Elas tinham um “chicote” escondido…Corri as guaritas todas, com a cabeça às voltas, pois se estes/as fossem encontrados/as, era o bom e o bonito, íamos ver o sol aos quadradinhos, na certa. Corri o quartel todo de ponta a ponta e nada. Então lembrei-me de espreitar por cima do muro. A última imagem que retenho desta atribulada aventura, é a das pseudo mulheres a tirar as meias de ligas, cheias de picos e cardos, pois tinham saltado das torres de vigia, para o meio do mato. Não paravam de se coçar, desesperadas, pelo corpo todo e a atirarem os sapatos de salto alto vermelhos, de mulheres super sensuais. Moral da estória: peça sempre identificação àqueles a quem der boleia!
Teresa.

terça-feira, 29 de julho de 2008

O PENSAMENTO FILOSÓFICO DE FERNANDO PESSOA





Descobri há pouco tempo o Pensamento filosófico de Fernando Pessoa. Fiquei impressionado, aliás, bem impressionado, ao ponto de deixar esta mensagem pessoana a todos os Homens e Mulheres carentes de modéstia e humildade. Que antes de avaliarem ou tomarem posição sobre algo, pensem bem na relatividade e instabilidade do seu próprio pensamento.

Deixo-vos aqui Um excerto da Filosofia pessoana.



O PENSAMENTO FILOSÓFICO DE FERNANDO PESSOA

In COELHO, António de Pina, Textos Filosóficos de Fernando Pessoa. Lisboa: Editorial Nova Ática; Vol. I, p. 3


“ (…) Toda a opinião é uma tese, e o mundo, à falta de verdade, está cheio de opiniões. Mas a cada opinião compete uma contra-opinião, seja crítica da primeira, seja complemento dela. Na realidade do pensamento humano, essencialmente flutuante e incerto, tanto a opinião primária, como a que lhe é oposta, são em si mesma instável (…).
(…) À certeza com que cada um pensa o que julga que pensa convém opor a certeza com que se pode pensar o contrário, com que se consegue tornar lógico o absurdo […]
O Mundo – exterior é real como nos é dado. As diferenças que há entre a minha visão do mundo e a dos outros são uma diferença de sistemas nervosos (...)”


Esta foi a minha primeira lição de Filosofia. Distinguir Verdade e Opinião e/ou Verdade e Aparência. A facilidade com que formamos opiniões, com aparência de Verdade é uma dos maiores problemas de comunicação. À minha opinião devo contrapor a opinião de outros. A minha tese (opinião) não é forçosamente a Verdade, mas sim um julgamento pessoal sobre algo; devo confrontá-la com outras e a partir daí posso caminhar para a Verdade. Os meus juízos ou avaliações da realidade podem ser interpretações falsas ou precipitadas. Só uma análise crítica ponderada pode obviar o enviesamento da Verdade. Quantas vezes formamos opiniões a partir de sensações ou de ideias construídas com base em preconceitos (o que achamos das pessoas, por exemplo) e com elas avaliamos seguramente os outros, sem nos confrontarmos com a opinião contrária ou sem nos darmos ao trabalho de consultar e ouvir todas as partes envolvidas?
A nossa visão do mundo é apenas a nossa visão do mundo, tão instável e relativa como a dos outros. Ou será que a nossa opinião é a melhor, porque é a nossa? Onde está e qual é a verdade? No Sujeito que a formula ou na realidade que avalia?


Luís Mourinha

sábado, 26 de julho de 2008

ESTÓRIAS

RECORDAR ESTÓRIAS DA GAVETA

Vive e deixa viver.
Quando o questionavam sobre seu o modo de vida, Manel Neto, respondia imperativamente: "quem vai vai, quem está está". Sentado à porta da taverna, mesmo no centro da Vila, por onde passávam conhecidos e desconhecidos, Manuel Neto trazia consigo um curriculum invejável: contava-se que nas inúmeras incursões ao balcão da tasca, era capaz de beber um garrafão de vinho, acompanhado de uma e apenas uma azeitona. Se é verdade ou não, nem sabemos (nem interessa para o caso)... mas à porta da tasca, lugar sacralizado pela sua presença diária, o taberneiro colocou uma cadeira onde o religioso se sentava e de onde poderia ver o mundo, claro está o seu mundo, mergulhado no licor que lhe dava cor à vida. De lá, perante o mundo suspirava aforismos sábios sobre o que lhe parecia ser a vida. A mais profunda e sábia foi aquela, cuja mensagem afastava todos aqueles que lhe queriam impor uma forma de vida, com a qual não se identificava: "amigo não empata amigo; inimigo muito menos"; mensagem essa,muitas vezes expressa no aforismo: "quem vai vai, quem está está".
E para quem parecia nada saber de ética ou de respeito pela vida dos outros, o Manel, analfabeto de formação, dava lições de alta cultura: quem passa deve seguir o seu caminho e deixar estar quem está, na sua vida, como acha que deve estar.

in Estórias de Outros Velhos

ANTIGAS ESTÓRIAS DA GAVETA

O amor na modernidade

Numa sociedade em que a própria sede da economia moral parece invadida pelas forças do mercado consumista, e a fragilidade dos laços humanos prepondera, qual o significado do amor numa dualidade de perspectivas?

- o amor no relacionamento entre dois seres humanos (evitam-se exponencialmente compromissos para uma vida e o amor caracteriza-se por uma presença líquida (Bauman), procura-se o enamoramento pela Internet, e os próprios filhos surgem amiúde como objectos de consumo emocional). O que significa amar alguém ?

- o amor à humanidade (amar os nossos semelhantes exige um acto de fé e significa a transição dum estado de sobrevivência para um estado de moralidade; todavia existe o paradoxo das próprias cidades, que constituem no seu âmago verdadeiros campos de refugiados, incentivam a xenofobia e promovem a segregação das classes sociais). Podem a partilha, a solidariedade e a fraternidade para com os nossos semelhantes prevalecer na modernidade ?

Flávio M.

ANTIGAS ESTÓRIAS DA GAVETA







José Manuel Ribeiro Dores, "Chalana". Já foi ciclista do Benfica, treinador das camadas jovens do Vinhense, adjunto do Paco Fortes no Pinhalnovense. É incrível a facilidade com que passa do mundo do real para o imaginário. Tem uma alma enorme, decerto, mundo de encontros vários. É assistente na venda ambulante de produtos hortícolas em transporte de tracção animal. Simples, humilde, amigo de toda a gente, nunca se lhe conheceu ponta de agressividade. É uma figura pública e deveria merecer, por isso, um qualquer reconhecimento local, porque nem só da distinta intelectualidade se enobrece um povo.
Luis Santos

RECORDAR ESTÓRIAS DA GAVETA








O Salvador das Dores é um velho amigo. Quase desde que me lembro de mim, lembra-me dele. De modo que fui crescendo também a vê-lo passar.
Auxiliar de roupeiro do CRI, amante do jogo da sueca, frequentador diário de cafés e poeta das esquinas, nunca se lhe conheceu actividade por conta de outrém.
As más línguas dizem que nunca quis vergar a mola, mas eu cá por mim acho que ele teve a coragem de se reformar, por conta própria, antes ainda de atingir a maioridade. Talvez por ter crescido dentro de uma fábrica de cortiça, onde o seu pai trabalhou toda uma vida. Enjoou tanta responsabilidade.
Onde foi ele desenvolver tamanha habilidade não sei responder, mas ainda um dia destes lhe pergunto.
Luis Santos

RECORDAR ESTÓRIAS DA GAVETA

O amor tece-se de matéria sensível e a sua génese veste-se de universalidade. Não lhe compreende a razão, nem o verdadeiro sentir nem a linguagem da sua manifestação. Na relação de presença ou de privação com o objecto amado, escrevem-no com sublimação os caminhos da poesia.

A sucessão do tempo e as lições da vida esculpiram em Ana ponderação e reflexividade compreendendo e sedimentando na consciência a finitude e a efemeridade. O universo das paixões eleva o ser humano a um estágio de felicidade instancial inimitável, mas as decepções, o sofrimento e a esfera da necessidade apuram num espírito maduro a temperança, a lucidez e a responsabilidade.

Porém, a solidão não poderia ser eternamente uma boa conselheira. E mais que a partilha e o diálogo dos corpos Ana necessitava do afago da alma, humanizando o curso dos dias no paradigma da presença de alguém, dar e receber os receios e as esperanças que moldam na temporalidade o que cada um vai sendo (ou não sendo) em si. A mudança apenas triunfa num desafio resolvido no interior de nós.

Empreendedora, Ana decidiu melhorar o seu grau de sociabilização. Transformou os seus laços profissionais com intimismo e relançou com dinamismo a arqueologia da amizade, tantas vezes olvidada pela escolha de um só caminho.

E no labirinto dos jardins mundanos chegou o momento de conhecer Carlos !
Suspensos no ar, gemiam os últimos murmúrios invernais. A natureza renovava-se e irrompia numa profusão de cores. O sol da manhã despertava a vontade de vencer alentando o corpo e alumiando a alma. Ana viajava até ao Cercal, para a discussão duma proposta de decoração das novas instalações de uma pequena empresa de produtos químicos localizada num parque industrial daquela vila alentejana.

Carlos presidia a empresa e foi o seu interlocutor principal no decurso daquela reunião. De postura sóbria e o rosto vincado pela agrura dos dias, as palavras soltavam-se exigentes e pragmáticas no verbo do seu discurso. De humor sereno e trato formal, o olhar desenhado em castanho escuro transmitia todavia uma ambiência de tristeza.

Enérgica e feminina, maternal e decidida, Ana causou em Carlos um sentido híbrido de competência e de graça e os números (a vil matéria), a linguagem do negócio, tornaram-se supérfluos no desiderato da conversação.

Por vezes a voz do silêncio, a dor da ausência, sopram no labirinto do coração. É deslumbrante o mundo feminino quando disposto a amar. Tudo nele é vibração, intuição, paixão e coragem. Mesmo refreado pelo merecimento do desconhecido e pela reminiscência dum amor tão presente nos frutos colhidos daquela que fora a mais bela árvore do jardim da sua existência.
Ana fomentou com discrição e intensidade a nova relação e compreendera sensata e progressivamente em Carlos um tom de amargura. Ele rompera há poucos meses com Cristina, em nome da arte por “quem” esta se confessara apaixonada. Os encontros continuamente frequentes culminaram na cumplicidade do corpo e da alma. Ana sabia que não fruía uma paixão cega e estival e apesar de alguma rigidez de diálogo e do tempo dedicado por ele aos filhos Luísa e Francisco, ela gostava de Carlos. A sua serenidade, a sua coerência e a sua resignação dissipavam a parca espontaneidade e a aridez dos sorrisos mais profundos. Quanto a ele cativara-se de Ana por aquilo que ela era, e o eco do seu corpo e o rio do seu olhar aprisionaram-no para sempre.

Invocando a consciência de si, Ana reconhecia que nele encontrara a admiração por si e o conforto da maturidade. Não se apresse a vida porque não se extingue o tempo. A escola da existência ensina-nos que todo o ser humano adora ser apreciado e que as críticas recorrentes desgastam e consomem a essência do amor.

A harmonia inebriava a relação e nem a pouca apetência do seu par pelas actividades culturais, tão prezadas para Ana, induzia antagonismos ou adversidade. Ela aprendeu a cultivar as semelhanças e a admitir as diferenças, e a juventude e o apego à vida dos seus filhos eliminaram daquela existência o vocábulo da vacuidade. Percebera porque a tenra idade nos traz o amor como um capricho do destino. Nos dois seres que habitam a equação do amor ela já não era deterministicamente a incógnita.

Cumpriram-se mais alguns ciclos da roda do universo e a Primavera terna e carinhosa que aproximara Ana do amor amadurecera na história da sua existência. O rio onde entrara fluía intenso e cadenciado, e mesmo os escolhos que nele transitavam não lhe privavam o leito de tranquilidade. De Joaquim, os meros sinais de aparência, decorrentes das visitas periódicas aos filhos ou de aniversários de cariz ainda familiar; cumulativamente, os rumores locais dum aburguesar contínuo, enfeudado na rotina entre os correios, as sedes dos clubes e a boutique de Sofia.

Renovou-se sete vezes o hino à vida quando a serenidade daquela existência foi abalada pela alteridade do mundo. Vítima súbita de patologia cardio-vascular Joaquim agonizava num leito hospitalar, onde esgotaria os seus últimos momentos nesta terra.

A sombra da perda desceu sobre Ana, e olhando o espelho do quarto onde Carlos lhe conseguira amordaçar a solidão, chorou lágrimas profundas de mágoa e de saudade.

Que fracção de si, lhe subtraíra o amor ?

Flávio Meireles

RECORDAR ALGUMAS ESTÓRIAS DA GAVETA

Vive e deixa viver.
Quando o questionavam sobre seu o modo de vida, Manel Neto, respondia imperativamente: "quem vai vai, quem está está". Sentado à porta da taverna, mesmo no centro da Vila, por onde passávam conhecidos e desconhecidos, Manuel Neto trazia consigo um curriculum invejável: contava-se que nas inúmeras incursões ao balcão da tasca, era capaz de beber um garrafão de vinho, acompanhado de uma e apenas uma azeitona. Se é verdade ou não, nem sabemos (nem interessa para o caso)... mas à porta da tasca, lugar sacralizado pela sua presença diária, o taberneiro colocou uma cadeira onde o religioso se sentava e de onde poderia ver o mundo, claro está o seu mundo, mergulhado no licor que lhe dava cor à vida. De lá, perante o mundo suspirava aforismos sábios sobre o que lhe parecia ser a vida. A mais profunda e sábia foi aquela, cuja mensagem afastava todos aqueles que lhe queriam impor uma forma de vida, com a qual não se identificava: "amigo não empata amigo; inimigo muito menos"; mensagem essa,muitas vezes expressa no aforismo: "quem vai vai, quem está está".
E para quem parecia nada saber de ética ou de respeito pela vida dos outros, o Manel, analfabeto de formação, dava lições de alta cultura: quem passa deve seguir o seu caminho e deixar estar quem está, na sua vida, como acha que deve estar.

quinta-feira, 3 de julho de 2008

"Nova Águia" em Alhos Vedros

Na próxima sexta-feira, dia 4 de Julho, pelas 21 horas, teremos no Moinho de Maré do Cais Velho, em Alhos Vedros, o lançamento da Revista Nova Águia. A organização do evento está a cargo da Escola Aberta Agostinho da Silva (CACAV) e de alguns elementos do MIL (Movimento Internacional Lusófono) local. Estão confirmadas as presenças do Prof. Paulo Borges e de Renato Epifânio, ambos membros da direcção da Revista.

Estamos todos convidados.