Um desafio aos nossos leitores e colaboradores.
Mandem Estórias sobre Alhos Vedros.
As Vossas Estórias, as Vossas recordações, as Vossas experiências.
Ficamos à espera!
quarta-feira, 14 de fevereiro de 2007
MANUEL BASCULHO
O Manuel Basculho é um dos sem abrigo de Alhos Vedros.É sabido que tem um quarteirão de milhares de euros no Banco, mas prefere antes viver na rua do que pagar guarida num desses lares para a 3ª idade.Hoje, vai-se arrastando de esquina em esquina, de banco em banco de jardim, por lugares semi-ocultos, não sejam demais os olhos que o olhem. Come quase nada. Dorme pelos buracos. Veste umas calças que eram de tom claro. E à sua volta vai-se moldando um ar nauseabundo, insuportável.Naturalmente, tem dificuldade em impor a sua presença e suportar o olhar dos outros, acabando por comprar alguma pouca comida de fugida e tem até, por isso, dificuldade em arranjar umas garrafitas de vinho. Diz que já não bebe por causa do fígado. Sonha com postas de bacalhau cozido com batatas. Se é que ainda sonha. Eu acho que sim.Tem 68 anos de idade, mas não recebe reforma alguma. Provavelmente, porque nunca teve capacidade para se deslocar até ao Barreiro, à Segurança Social, meter os papéis, nem teve ninguém que se dispusesse a fazer isso por ele, o que sem dúvida constitui uma missão muito difícil para qualquer humano com falta de asas, como eu.O Manel nasceu no Pinhal Castanho. Naquele tempo passavam-se carradas de fome, diz, pelas alturas em que o seu pai foi para a Guerra. Foi fazendo de tudo um pouco para sobreviver. Alguns contam que foi pedreiro. E, depois, o Manel é daquelas personagens sobre quem se contam sempre muitas estórias. Uma vez, dizem, ao construir uma casa de banho, esqueceu-se de fazer a porta e ficou fechado lá dentro. Outra vez, ao reconstruir o muro da fábrica do Cabrita, quase a concluir a obra, pediu a alguém que ficasse a segurar o muro, enquanto ele ia beber uns copitos de vinho, não fosse o muro cair.Nunca se lhe conheceu companheira, ou talvez até tenha sido tudo por um desgosto de amor. Sabe-se que enquanto a mãe viveu, vivia desintegradamente integrado. Agora já nem isso. Há quem diga que é deles o Reino dos Céus. Será?
Luís Santos
domingo, 11 de fevereiro de 2007
"Roteiro", a bola do Euro 2004
Sobre o Euro 2004 já todos os balanços foram feitos. Há, no entanto, uma pequenina coisa que para nós tem muita curiosidade, mas que quase passou despercebida. A “Roteiro”, nome atribuído à bola utilizada no Euro 2004, fabricada por uma famosa marca desportiva, obedecendo às mais avançadas tecnologias e às mais rigorosas exigências da UEFA, assim se designou, em homenagem a um célebre Português que se pensa tenha escrito o diário de bordo, da Viagem da Descoberta do Caminho Marítimo para a Índia, capitaneada por Vasco da Gama, no ano de 1498. Referimo-nos ao escritor Álvaro Velho, natural do Barreiro, e cuja memória se guinda ao futuro, por exemplo, na Escola do Ensino Básico do Lavradio que se faz registada com o seu nome. "Roteiro" foi precisamente o nome que o escritor atribuiu à sua grandiosa obra.
Ora, como na altura o Barreiro era um lugar do velho Concelho de Alhos Vedros, do qual só saiu, se a memória não nos trai, no ano de 1521, em carta de foral atribuída pelo rei alcochetano D. Manuel I, isso significa que a “Roteiro”, assim se designou em homenagem a um famoso Alhosvedrense, mas por todos nós esquecido.
Então, aqui temos todos um bom motivo de regozijo, dada a curiosa relação entre a bola do Euro 2004 e a nossa região que convém destacar, até pelo inédito feito que constituiu tal acontecimento desportivo. Como sabemos, nunca a nossa selecção tinha conseguido uma classificação tão distinta numa prova organizada pela UEFA.
Apraz-nos, assim, acrescentar mais um precioso elemento à nobre história de Alhos Vedros que, é verdade, tem andado nestes últimos anos tão mal tratada.
Luis Carlos
Ora, como na altura o Barreiro era um lugar do velho Concelho de Alhos Vedros, do qual só saiu, se a memória não nos trai, no ano de 1521, em carta de foral atribuída pelo rei alcochetano D. Manuel I, isso significa que a “Roteiro”, assim se designou em homenagem a um famoso Alhosvedrense, mas por todos nós esquecido.
Então, aqui temos todos um bom motivo de regozijo, dada a curiosa relação entre a bola do Euro 2004 e a nossa região que convém destacar, até pelo inédito feito que constituiu tal acontecimento desportivo. Como sabemos, nunca a nossa selecção tinha conseguido uma classificação tão distinta numa prova organizada pela UEFA.
Apraz-nos, assim, acrescentar mais um precioso elemento à nobre história de Alhos Vedros que, é verdade, tem andado nestes últimos anos tão mal tratada.
Luis Carlos
ESTÓRIAS DE ALHOS VEDROS
Este Bolg é um espaço literário.
Espaço (e tempo) dedicado às "Estórias de Gaveta", que por via digital poderão ascender à categoria (digo, dignidade) de estórias reais, contadas na primeira pessoa.Mande-nos a sua estória, indique um pseudónimo (nome de autor) e nós publicamos.
Aceitamos as Vossas Estórias, que podem ser enviadas para:
Autores/ Coordenadores:
- Luís Santos
- Luís Mourinha
- Luís Gomes
sexta-feira, 9 de fevereiro de 2007
Intimidades
A MINHA PRIMEIRA NAMORADA
A Júlia foi a minha primeira namorada. Era filha da vizinha Natália e vivia num rés-do-chão de telha vã, no enfiamento de um dos lados da praça imperfeita onde a miudagem se arrogava de preceitos de propriedade e dava guarida a brincadeiras e a dois passos da qual se situava a porta da minha casa. Foi assim que nos vimos e nos mostrámos e isso passou-se desde que os meus calçõezinhos se apeteceram de rabear pelo piso arenítico do jardim Entre a meia dúzia de miúdas que por ali orbitavam com idade rondando a minha, foi por ela que o meu beicinho se deixou cair. São coisas do coração, não há em elas razões que tenham a ver com a nossa vontade.
Eis então a Júlia, o meu primeiro amor.
Tudo contado, desde o momento da primeira jura de eterna paixão, com os interregnos esperados entre quem cresce, ainda namorámos três anos. Aconteceu desde os dez anos de idade do último degrau da instrução primária até aos treze da minha entrada no Liceu. Ela é um ano mais velha.
Oh se crescemos juntos…
Enfrentámos muita saraivada e, sempre cúmplices, nunca perdemos a confiança mútua e uma solidariedade quase sem limites. Da incólume passagem pela agressão de um quarteto de mariolas, no Barreiro, quando a caminho para uma das primeiras idas à escola preparatória, às opas de silêncios sobre aquilo que os outros não deveriam saber, acrescentando ainda a partilha do estudo e dos saberes e até os incentivos para as responsabilidades escolares e outras, foram muitas e diversas as nossas experiências conjuntas e se fomos aprendendo com elas…
Posso registar com carinho, agora que praticamente um quarto de século passou sobre a hora de finados, tratou-se de um triénio prenhe de laços e alegria que teve o seu momento mais alto no Verão que se seguiu à dispensa dos exames de aprovação no ciclo preparatório, durante o qual, nos meses de Julho e Agosto, tive o prazer da sua companhia na casa balnear que os meus pais possuíam em Sesimbra. Quando em Setembro seguia a caminho do Luso, para as três semanas que a família aí costumava passar, a fim de o meu pai usar as termas, nesse ano eu sentia-me o miúdo mais feliz do mundo.
Obviamente a mãe dela tinha confiança em mim o que não era nada de espantar. Afinal, eu era filho de uma família decente e respeitada e sob os meus tectos tinha ela acesso a programas televisivos e discos ou pistas de automóveis e carros telecomandados, além dos livros, e de modo algum passaria pela cabeça de alguém ver algum mal nisso. No que me toca, também eu era da casa e tinha toda a liberdade de entrar enquanto os seus pais cumpriam as jornadas fabris de sustento.
Começou por ser uma relação pueril do ponto de vista do afecto nada mais que sucessivas e quase diárias reafirmações da aliança e, no plano da carne, apenas ultrapassando os esporádicos abraços mais apertados de um ou outro pé de dança, com o encostar das coxas nos bancos das camionetas da carreira e as mãos dadas por debaixo do balandrau que se fazia com as pastas e algum casaco ou blusão.
A ela dei o primeiro beijo nos lábios e igualmente o primeiro no rosto. E é claro que não nos ficámos por aí. Foi pois na sua pele eriçada que os meus dedos púberes se iniciaram a percorrer e desenhar mapas de carícias e, na ternura acanhada da vez primeira, se aventuraram a passar sob o elástico do soutien em busca de uns mamilos retesados sob o ritmo da arfagem. E as mãos baptismais que se tocaram e retocaram nos sexos um do outro, em uma ou outra ocasião nus. Demo-nos mesmo aos primeiros toques de libelinha na corola de uma flor melada e como nos sentíamos bem, cientes de estarmos plenos de céu.
Por fim a vida separou-nos. Ela entrou para a escola comercial e os estudos acabaram por nos remeter para caminhos separados, no decurso dos quais outros rostos surgiram e aos poucos ganharam predominância e tanto ela como eu nos entrgámos a outros corações.
Hoje nada resta, a não ser a memória e é só ela que me possibilita reviver o meu primeiro namoro e sobretudo identificar a minha primeira namorada que, um dia, me chamou à janela e me entregou um bilhetinho escrito à mão em papel de caderno.
“-Lê isso e depois devolve-me com a resposta” –Disse ela fechando-me a vidraça na cara, tão inesperadamente como me entregara a missiva.
Já não serei capaz de repor tudo o que lá estava escrito, mas sei que começava sem apelo nem agravo por um isoladíssimo amo-te. Só depois explicava a razão de ser daquele amor e manifestava a vontade de saber se eu estaria ou não interessado em me entender de namoro com ela.
Creiam ou não, após a leitura fiquei atónito. Senti uma arritmia repentina e uma crispação ao nível da barriga, à medida que o rosto aquecia de forma assustadora até ao ponto de incómodo. Jamais experimentara aquelas sensações e se me perguntassem, no momento, certamente seria incapaz de dizer o que se estaria a passar comigo.
No dia seguinte eu disse-lhe que também a amava.
Crato, 20 de Fevereiro de 1996
A Júlia foi a minha primeira namorada. Era filha da vizinha Natália e vivia num rés-do-chão de telha vã, no enfiamento de um dos lados da praça imperfeita onde a miudagem se arrogava de preceitos de propriedade e dava guarida a brincadeiras e a dois passos da qual se situava a porta da minha casa. Foi assim que nos vimos e nos mostrámos e isso passou-se desde que os meus calçõezinhos se apeteceram de rabear pelo piso arenítico do jardim Entre a meia dúzia de miúdas que por ali orbitavam com idade rondando a minha, foi por ela que o meu beicinho se deixou cair. São coisas do coração, não há em elas razões que tenham a ver com a nossa vontade.
Eis então a Júlia, o meu primeiro amor.
Tudo contado, desde o momento da primeira jura de eterna paixão, com os interregnos esperados entre quem cresce, ainda namorámos três anos. Aconteceu desde os dez anos de idade do último degrau da instrução primária até aos treze da minha entrada no Liceu. Ela é um ano mais velha.
Oh se crescemos juntos…
Enfrentámos muita saraivada e, sempre cúmplices, nunca perdemos a confiança mútua e uma solidariedade quase sem limites. Da incólume passagem pela agressão de um quarteto de mariolas, no Barreiro, quando a caminho para uma das primeiras idas à escola preparatória, às opas de silêncios sobre aquilo que os outros não deveriam saber, acrescentando ainda a partilha do estudo e dos saberes e até os incentivos para as responsabilidades escolares e outras, foram muitas e diversas as nossas experiências conjuntas e se fomos aprendendo com elas…
Posso registar com carinho, agora que praticamente um quarto de século passou sobre a hora de finados, tratou-se de um triénio prenhe de laços e alegria que teve o seu momento mais alto no Verão que se seguiu à dispensa dos exames de aprovação no ciclo preparatório, durante o qual, nos meses de Julho e Agosto, tive o prazer da sua companhia na casa balnear que os meus pais possuíam em Sesimbra. Quando em Setembro seguia a caminho do Luso, para as três semanas que a família aí costumava passar, a fim de o meu pai usar as termas, nesse ano eu sentia-me o miúdo mais feliz do mundo.
Obviamente a mãe dela tinha confiança em mim o que não era nada de espantar. Afinal, eu era filho de uma família decente e respeitada e sob os meus tectos tinha ela acesso a programas televisivos e discos ou pistas de automóveis e carros telecomandados, além dos livros, e de modo algum passaria pela cabeça de alguém ver algum mal nisso. No que me toca, também eu era da casa e tinha toda a liberdade de entrar enquanto os seus pais cumpriam as jornadas fabris de sustento.
Começou por ser uma relação pueril do ponto de vista do afecto nada mais que sucessivas e quase diárias reafirmações da aliança e, no plano da carne, apenas ultrapassando os esporádicos abraços mais apertados de um ou outro pé de dança, com o encostar das coxas nos bancos das camionetas da carreira e as mãos dadas por debaixo do balandrau que se fazia com as pastas e algum casaco ou blusão.
A ela dei o primeiro beijo nos lábios e igualmente o primeiro no rosto. E é claro que não nos ficámos por aí. Foi pois na sua pele eriçada que os meus dedos púberes se iniciaram a percorrer e desenhar mapas de carícias e, na ternura acanhada da vez primeira, se aventuraram a passar sob o elástico do soutien em busca de uns mamilos retesados sob o ritmo da arfagem. E as mãos baptismais que se tocaram e retocaram nos sexos um do outro, em uma ou outra ocasião nus. Demo-nos mesmo aos primeiros toques de libelinha na corola de uma flor melada e como nos sentíamos bem, cientes de estarmos plenos de céu.
Por fim a vida separou-nos. Ela entrou para a escola comercial e os estudos acabaram por nos remeter para caminhos separados, no decurso dos quais outros rostos surgiram e aos poucos ganharam predominância e tanto ela como eu nos entrgámos a outros corações.
Hoje nada resta, a não ser a memória e é só ela que me possibilita reviver o meu primeiro namoro e sobretudo identificar a minha primeira namorada que, um dia, me chamou à janela e me entregou um bilhetinho escrito à mão em papel de caderno.
“-Lê isso e depois devolve-me com a resposta” –Disse ela fechando-me a vidraça na cara, tão inesperadamente como me entregara a missiva.
Já não serei capaz de repor tudo o que lá estava escrito, mas sei que começava sem apelo nem agravo por um isoladíssimo amo-te. Só depois explicava a razão de ser daquele amor e manifestava a vontade de saber se eu estaria ou não interessado em me entender de namoro com ela.
Creiam ou não, após a leitura fiquei atónito. Senti uma arritmia repentina e uma crispação ao nível da barriga, à medida que o rosto aquecia de forma assustadora até ao ponto de incómodo. Jamais experimentara aquelas sensações e se me perguntassem, no momento, certamente seria incapaz de dizer o que se estaria a passar comigo.
No dia seguinte eu disse-lhe que também a amava.
Crato, 20 de Fevereiro de 1996
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