O Movimento das Forças Interrogativas (MFI), é Fixe. Ora aí está uma sigla interessante, se a compararmos com as que acompanharam a revolução democrática de Abril. Talvez um bom indicador de que hoje estamos a pensar melhor e com mais imaginação que há 30 anos. Por isso substitua-se o desespero e a tristeza, pela esperança e pela confiança. Mesmo tendo de se gramar com o Sócrates.
Equivalente ao MFI, na altura, só mesmo o MFA(P), Movimento das Forças Armadas em Parvas. Senão vejamos alguns exemplos:
- MRPP, Movimento Revolucionário do Partido do Proletariado. Só conheço uma pessoa que ainda hoje era capaz de pôr esta sigla num Movimento. Bem, talvez duas.
- PCP(R), Partido Comunista Português Reconstruído. Naturalmente que depois de todos os Partidos Comunistas, Russo, Chinês, Albanês, Portugal tinha que arranjar um melhor que os outros todos. E quantos rios de tinta foram gastos para o legitimar. Como seria engraçado ver outra vez alguns amigos meus a vender o Bandeira Vermelha. Claro que hoje seria mais natural tratar-se do jornal do Benfica.
- PCP(ML), Partido Comunista Português Marxista Leninista. Uma vez um conterrâneo amigo levou-me a um comício deste partido. Pretendia angariar novos simpatizantes. O homem do discurso era na altura o Eduíno Vilar. Foi daqui que veio o Francisco Louçã, se não estou em erro, ainda antes do PSR (Partido Socialista Revolucionário). Enfim, um acontecimento digno do “isto só vídeo”.
- Ou até da CACAV, sigla que nem precisa de comentários. Sem dúvida que Movimento das Forças Interrogativas está a léguas de distância em termos de bom gosto.
- Isto já para não falar na OCMLP, da FEC(ML), da UEDP, do COPCON, ou do POVO UNIDO QUE LAVAS NO RIO, da tal GAIVOTA que voava, voava (claro que agora é a Águia Vitória), do AVANTE camarada Avante, ou de uma ESTÀTUA DE FEL A ARDER... E é claro que, pelo meio, acabava sempre por aparecer o Tino Flores, que antecedia as discussões sobre os inconvenientes das refeições burguesas onde entrasse o marisco, ou as razões porque os gajos que iam aos bailes eram social-fascistas.
Hoje a coisa está mais refinada. O PCP já não é comunista, embora ainda se inspire nas ideias de Marx, mas evita dizê-lo em voz alta por causa dos “mal entendidos”. O PS, já há muito que tirou o Socialismo da gaveta e meteu-o no lixo, juntamente com o arreda Marx Satanás, e tornou-se um Partido Social Democrata. O Partido Social Democrata é acima de tudo neo-liberal (muito mais que democrata) e o Partido Popular de popular terá pouco ou nada, já que é o mais elitista de todos. E por aqui estamos conversados.
É também claro que daqui a uns aninhos vai haver um Referendo sobre o SIM ou Não à liberalização do Aborto, por proposta apresentada na Asssembleia da República pelo PP(R), Partido Popular Reconstruído (de novo liderado por Paulo Portas), aprovada por maioria com os votos a favor também do (regressado) PPD, este, contudo, em vias de se transformar em PSL. A grande novidade será a oposiçao militante do Bispo da Moita, o que lhe custará caro por cauda das pressões do AVP (Alhos Vedros ao Poder). No tempo em que o Presidente da República será, naturalmente, o Dr. Pedro Santana Lopes.
E é assim que seguirá todo este en-fado da política que se vai vivendo cá no Burgo. O Plano Director Municipal, a OTA e o TGV abordaremos mais tarde na secção dos lobbies-homens.
Luis Carlos
segunda-feira, 5 de fevereiro de 2007
DAQUI FALA O MOVIMENTO DAS FORÇAS INTERROGATIVAS
"O Povo Unido Jamais Será vencido"
Recordo esta frase, como se fosse hoje. Era uma máxima popular do pós-vinte e cinco de abril de 74 e através dela se reuniam forças e convicções. Nesse dia não tive aulas. A Escola de Alhos Vedros fechou portas e as pessoas estavam todas na rua. Confesso que foi um dia estranho, que só assimilei mais tarde, dentro daquilo que era possível nos meus onze anos de idade. As festas de 1 de Maio, Dia do Trabalhador, abriram-me algumas portas da minha lucidez ainda muito afectada. Não poderia ser mau: dias sem aulas, festas nas ruas, pessoas felizes, liberdade de expressão e o fim da Guerra Colonial. Nesse dia histórico fomos para Lisboa, ao som das buzinas do Ami 8. No Parque Eduardo VII bandeiras e multidões gritavam em unissono: "O Povo Unido, jamais será vencido". "Fascismo nunca mais". Era insólito, estranho, novo... mas era real. Gritei, porque todos gritavam e nesses prantos de alegria percebi que se tratava do inicio de uma nova Era. Era o primeiro dia do resto das nossas vidas jovens e promissoras.
Outros tempos, tempos idos, convições passadas, ideologias vencidas.Na verdade, hoje em dia as convicções são outras e as energias/ forças estão concentradas/ apontadas noutros sentidos.
O que é verdade é que o povo foi vencido e a democracia já não se compadece com etimologias ou convicções passadas. O governo já não é do povo e já nem se sabe o que é o povo. Aliás, ninguém é povo. Todos se consideram acima do povo ou pelo menos à margem desse antigo cliché.
O que é verdade é que já não reconhecemos a democracia que descobrimos em Abril, nem se sabe ao certo onde se "situa", se bem que todos afirmamos viver num sistema democrático.
Se é verdade que a democracia actual venceu o povo de Abril, também é verdade que é preciso repensar o que é isso de democracia no Portugal do Século XXI. O que é que a UE e a globalização fizeram aos ideais do Vinte Cinco de abril? Onde está o povo que jamais seria vencido? Quem tramou (e calou)o povo que jamais seria vencido?
(Daqui fala o Movimento das Forças Interrogativas (MFI),
com uma série de perguntas e perplexidades.)
Dialógico Ponto Com
domingo, 4 de fevereiro de 2007
FUTURO ALÉM TEJO
Eduardo trabalhava na Cortiça, numa das fábricas mais conhecidas de Vendas Novas, entre muitas as que concorriam pela melhor qualidade do produto, extremamente procurado na altura. Começou ainda jovem, depois de deixar os campos onde "carregava à sua responsabilidade" um dos rebanhos da Casa de Bragança. Com ele muitos jovens que nunca conheceram a Escola, nem as brincadeiras de criança. Aos oito anos era tempo de se fazerem homens e ganhar o sustento da vida.
Marcolino Lopes, Mestre na arte da cortiça, liderava o grupo de homens crescidos à pressa. Eduardo reconhecia a perícia do Mestre, que o antecedia pela fama de excelente profissional.
As coisas complicaram-se quando Eduardo teve a ousadia de pedir a filha de Marcolino em casamento. Nem pensar! Estava fora de questão. A partir dai ela estava proibida de sair sozinha e nos bailes limitava-se a ver dançar. A dança estava interdita. A saída da costura, onde ingressou depois de completar a Quarta Classe, estava vigiada, como se estivesse a prever algum (im)previsto. Era preciso preservar a honra e a seguraça das filhas, com regras e prescrições bem definidas.
A Mundete fechava as portas. Marcolino e seus discípulos estavam no desemprego. Era preciso “procurar vida”. O Janeiro e o António Policarpo, já conheciam a margem sul do Tejo. Tinham vindo a Alhos Vedros e tinham conseguido trabalho. Escreveram uma carta promissora ao Eduardo. Havia emprego! Entre os pequenos fabricos e a Corticeira Ibérica e os Téxteis, pequenas fábricas familiares e a GEFA, era possível escolher ocupação e as condições oferecidas superavam o panorama alentejano.
As coisas complicaram-se quando Eduardo teve a ousadia de pedir a filha de Marcolino em casamento. Nem pensar! Estava fora de questão. A partir dai ela estava proibida de sair sozinha e nos bailes limitava-se a ver dançar. A dança estava interdita. A saída da costura, onde ingressou depois de completar a Quarta Classe, estava vigiada, como se estivesse a prever algum (im)previsto. Era preciso preservar a honra e a seguraça das filhas, com regras e prescrições bem definidas.
A Mundete fechava as portas. Marcolino e seus discípulos estavam no desemprego. Era preciso “procurar vida”. O Janeiro e o António Policarpo, já conheciam a margem sul do Tejo. Tinham vindo a Alhos Vedros e tinham conseguido trabalho. Escreveram uma carta promissora ao Eduardo. Havia emprego! Entre os pequenos fabricos e a Corticeira Ibérica e os Téxteis, pequenas fábricas familiares e a GEFA, era possível escolher ocupação e as condições oferecidas superavam o panorama alentejano.
Poucos dias depois os planos começaram a ser delineados.
Estava tudo combinado. Ao cair da noite, pelas 18 horas, o táxi do Manuel Ropiu parava à porta do número 44 da rua do Polígono. Ele esperava-a dentro do taxi. Logo que ela saísse de casa, o táxi rolaria para o desconhecido. Era uma noite de chuva miudinha. A Nilde sairia da Costura na companhia da prima Lucinda e sem que ninguém conseguisse perceber, deixou uma Carta em cima da máquina de Costura da mãe: “não se preocupem, vou seguir o meu caminho.”
Ele esperava dentro do veículo. Tinha de ser rápido! “Depressa! Para a estação de Bombel”. O nervosismo de uma fuga contrabalançava com um esperança indefinida. Misto de sentimentos, medo e esperança, insegurança e sonho…tudo ao mesmo tempo, confuso, mas promissor. Juntos, apoiados no medo, abriam um novo trilho: um caminho a dois e um misto de abandonos inconfessáveis. Para trás, ficavam as resistências a um namoro proibido, enjeitado pelos pais, mas assumido pelos próprios como opção legítima de vida. Cada vez mais longe, ao ritmo do táxi, ficava um Alentejo preconceituoso e impeditivo.
Estava tudo combinado. Ao cair da noite, pelas 18 horas, o táxi do Manuel Ropiu parava à porta do número 44 da rua do Polígono. Ele esperava-a dentro do taxi. Logo que ela saísse de casa, o táxi rolaria para o desconhecido. Era uma noite de chuva miudinha. A Nilde sairia da Costura na companhia da prima Lucinda e sem que ninguém conseguisse perceber, deixou uma Carta em cima da máquina de Costura da mãe: “não se preocupem, vou seguir o meu caminho.”
Ele esperava dentro do veículo. Tinha de ser rápido! “Depressa! Para a estação de Bombel”. O nervosismo de uma fuga contrabalançava com um esperança indefinida. Misto de sentimentos, medo e esperança, insegurança e sonho…tudo ao mesmo tempo, confuso, mas promissor. Juntos, apoiados no medo, abriam um novo trilho: um caminho a dois e um misto de abandonos inconfessáveis. Para trás, ficavam as resistências a um namoro proibido, enjeitado pelos pais, mas assumido pelos próprios como opção legítima de vida. Cada vez mais longe, ao ritmo do táxi, ficava um Alentejo preconceituoso e impeditivo.
O Luís Bezugo viu tudo, quando cruzava a rua em direcção ao Ferragôlo. Mas a mudez do vizinho não lhe permitiu contar o sucedido. Ficou atónito a apontar para o horizonte.
“Não há tempo a perder…o comboio não espera” Mas…”e o sapato?” Perdeu, caiu. A agitação do momento não deu tempo… esgueirou-se num último esforço de o alcançar. Gesto imprudente! O que estava combinado no maior dos secretismos, foi descoberto. A Vitália viu, viu tudo e declarou a viva voz: “a filha da Zalinda fugiu de casa”.
“Deixa”, disse ele, “compramos novos”. Estas palavras compensaram o deslize e dava novo ânimo à viagem. Ele trataria da compra. Que importância teria um sapato, se o compararmos com o raio da terra? A imensidão do momento não se compadecia com pormenores insignificantes. Para trás ficava a ficção realista de sapato perdido, a descoberta de Vitália, as angústias, os impedimentos e um Alentejo dominado por preconceitos, enfim, memórias de uma vida difícil de rejeições e obstáculos.
Já no Comboio para confortar e para ganho de coragem, ele acrescentava: “Casamos em Alhos Vedros…começamos tudo de novo. Os teus pais assim escolheram. E sabes… não somos os primeiros a fugir. Muita gente vai para lá, há mais trabalho … na CUF, na CP . Aqui nada conseguiríamos, aqui trabalha-se toda a vida na cortiça”
A avaliar pelo silêncio, ela parecia concordar, comprometendo-se na obsessão de ocultar um pé nu, que só por si denunciava a fuga.
Que viagem memorável! A angústia de uma fuga proibida, compensada pela esperança de uma vida a dois. Barreiro… Alhos Vedros, a proximidade com Lisboa, tudo prometia neste mundo admiravelmente novo. Novo, mas assustador, assim como assusta tudo o que é novo e desconhecido. Mas a escolha estava feita e os pais dela não compreenderiam. Que aflição, essa sensação terrifica de fugir para a liberdade.
Descalça, escondia a confusão do momento. Sem sapatos não somos gente.
Apearam-se em Alhos Vedros, já de manhã. O dia nascia ao ritmo de uma nova vida. Mas estava tudo planeado. Já tinham casa e sustento. De gravata deslocada e gabar dine dobrada no braço esquerdo, limpava o suor incontido de uma longa caminhada.
Chegados ao destino, um amigo do Eduardo esperava os noivos clandestinos.Em passo acelerado deu uma salto à Loja do Sr. Jorge, mesmo em frente à Igreja velha.Minutos depois estava de volta à Estação prometida, trazendo consigo uma caixa branca por abrir. Eduardo olhou para ela com ar confiante e sentenciou: “Toma, calça-te. A partir de agora, nada temos a temer”.
Dialógico e Deonilde Queimado
Dialógico e Deonilde Queimado
A FORÇA DO TRABALHO
Memória em verso de um migrante, que substituiu o Alentejo por Alhos Vedros promissor. Decorriam os anos 60 do Século XX quando havia muito trabalho na Cortiça, na Agricultura e nos Texteis. Muita gente veio para perto de Lisboa à procura de melhores condições de vida.
A FORÇA DO TRABALHO
"Trabalho até poder
levantar a enxada;
perdi no campo a saúde
não posso fazer mais nada.
Fui um bom trabalhador,
hoje estou preocupado;
Como já estou reformado
já ninguém me dá valor.
Vá eu onde for
não sei o que hei-de fazer
tenho de compreender
que estou a chegar ao fim,
não tive pena de mim
trabalhei até poder.
Trabalhei de noite e de dia
à chuva, ao frio e ao sol,
nunca fui homem mole;
Trabalhei como sabia
e às vezes até trazia
a roupa toda molhada,
ia ver era suada.
De trabalhar para comer,
às vezes já sem poder,
levantar a enxada.
Comecei a trabalhar
era ainda muito novinho.
Não trabalhava sózinho,
tinham que me acompanhar
talvez para me ensinar.
Eu aprendi como pude,
era um trabalho rude,
um trabalho fatigante
e daí para diante
perdi no campo a saúde.
Em rapaz moço da porta
depois passei a carreiro,
fui servente de pedreiro,
puxei pela foice torta
andei a cavar na horta.
Para ela ser semeada,
ajudei na desfolhada
para o milho debulhar
fartei-me de trabalhar
e não posso fazer mais nada."
Deonilde Lopes Queimado
sábado, 3 de fevereiro de 2007
ESTÓRIAS DE OUTROS VELHOS
É um Blog (já dissemos).É um espaço literário (já foi dito!).O que não se disse, é que pretende ser um espaço aberto, livre e despretensioso (se é que esta palavra existe), embora lierário.Literário, porque se dedica à escrita, mas sem as pretensões descabidas de elitismo ou clubismo. Isto porque as Estórias não têm dono nem estatuto social privilegiado; as estórias do "burgo velho" (Outros Velhos) são património de todos e por isso (repetimos!), não têm dono. Não têm dono, mas têm autores, que desejamos conhecer e publicar. E os autores não têm idade; são jovens e velhos, são apenas e simplesmente as pessoas que têm algo para contar, seja deste tempo ou de outros tempos.
E já agora (não sei se concordam!) com Estórias destas também se faz História. São relatos como estes, que, pertencentes à nossa memória colectiva, podem contribuir em conjunto para a descoberta da nossa identidade cultural (esta agora foi um pouco exagerada, admitimos).Por isso é um Blog de todos os que têm Estórias para contar e para ficcionar.
A verdade pura e dura não existe (provavelmente, não temos a certeza), dai que em nome desse relativismo e em prol da criatividade, as boas estórias têm sempre uma boa dose de invenção. Por isso, conte a(s) sua(s) Estória(s) ou Conto(s) e acrescente o(s) seu(s) "ponto(s)".
Seja bem-vindo!
Publicamos as Vossas Estórias,que podem ser enviadas para:
- velhos.alhos@gmail.com
Autores/ Coordenadores do Blog:
Autores/ Coordenadores do Blog:
- Luís Carlos Santos
- Luís Manuel Mourinha
- Luís Gomes
sexta-feira, 2 de fevereiro de 2007
INTIMIDADES
AQUI POSTO DE COMANDO DAS FORÇAS ARMADAS
Tanto para mim como para alguns amigos meus, a quinta-feira, vinte e cinco de Abril de mil novecentos setenta e quatro, foi um dia sem aulas.
Tinha então quinze anos de idade e, com isso, não se pense que eu era, de todo, um ignorante dessas coisas proibidas da política. Só pelo facto de ser nado e criado numa Vila com história no movimento operário e oposicionista à ditadura do Estado Novo, dificilmente me passaria despercebida a existência desses tabus e, naturalmente, muitas seriam as probabilidades de lhes vir a conhecer os enredos, ou parte, pequena parte, deles, para sermos mais precisos. Mas, sobretudo, acontecia que os adultos da minha família não morriam de amores pelo regime e, se em frente das crianças se abstinham de algumas abordagens, muitas vezes deixava, sair os seus comentários e não era preciso ser lá muito esperto para se perceber os seus ideias liberais e democráticos Em sessenta e nove, por exemplo, recordo a garrafa de espumante que o meu pai e o meu padrinho –o seu irmão mais velho- abriram para comemorar a vitória da oposição na Junta de Freguesia, ainda que a mesma tenha sido irrelevante. Lembro bem não só a alegria, como também o ambiente de silenciosa conjura com que o fizeram:
“-Vá lá Emília.” –Invectivava o meu tio Jofre a minha mãe para que tomasse parte na comemoração. “-Bebe também um gole que, pelo menos aqui, aqueles tiranos não se ficaram a rir.”
Além do que para dois dos meus primos mais velhos, as rebeldias de juventude se confundiam com a frequência de certos, política e até socialmente, pouco recomendáveis, tais como certas colectividades e cine-clubes, da região, onde pululavam os agitadores.
Mesmo com muitos dos miúdos com quem melhor me relacionava acontecia o mesmo. O Rui Madeira, com quem meses antes lera um livrinho de Jean Bruhat sobre Marx e Engels, tinha uma prima que estudava no Técnico, em Lisboa, e que lhe falava daqueles nomes e de Lenine, da revolução russa e da revolução chinesa e depois dizia que os russos eram revisionistas pois tinham traído a causa do povo, como me explicava o primo, quando, por vezes, as conversas entre os dois versavam aquele género de assuntos.
E até tínhamos aventuras nos nossos curriculum o o que, no meu cão, bastava ser a frequência da casa de um doutor qualquer que residia no Barreiro e que, de quando em vez, atirava aviões de papel com mensagens subversivas pela janela do sétimo andar. Tenho a certeza que, da primeira vez, o olhei com a admiração de quem tem pela frente um autêntico Gerado Sem Pavor.
Bem sei que para muitos foi o vinte e cinco de Abril um dia empolgante, em certos aspectos, quase diria épico. Para não falar daquela massa de gente que, em expectativa e apoio dos revoltosos, a partir do meio da tarde começou a invadir os cenários públicos da convulsão e, só para citar um nome, registo Francisco Sousa Tavares que, no Carmo, em nome e em auxílio dos militares, incentivava o povo a permanecer calmo e em ordem, enquanto decorria a negociação para a rendição de Marcelo Caetano e com ela, formalmente, a queda do regime. Antes de todos, em primeiríssimo lugar, está o Capitão Salgueiro Maia, quanto a mim, figura digna do panteão dos grandes heróis nacionais.
Tais são as memórias de quem assistiu, não em directo, como, hoje em dia, se gosta de sublinhar, mas ao vivo, ao derrube da tirania.
Sem embargo, no que me diz respeito, é como lhes disse, já não sendo ceguinho quando a revolução dos cravos estalou, mentiria se aqui pretendesse outra coisa; o dia vinte e cinco de Abril foi, sobretudo, um dia sem aulas e nada para fazer.
O meu primeiro contacto com os acontecimentos foi um comunicado do MRPP que li, numa tarjeta, entre as muitas que estavam espalhadas pelos passeios. Como tinha aulas matinais no Liceu do Barreiro, costumava tomar a camioneta da carreira do Montijo por volta das sete e trinta e ainda não tinha compreendido a comunicação que alertava a população para o perigo de se envolver no que supostamente era um golpe dos ultra capitaneados por Kaúlza de Arriaga, quando um rapaz de rádio ao ouvido me explicou que não se sabia bem o que era. A Emissora Nacional estava a transmitir música e de vez em quando liam um comunicado de um movimento das forças armadas, em que se pedia à população para permanecer calma e fazer a sua vida normal e em que se afirmava estar em curso um golpe militar para acabar com o regime. Chegado à escola, todo eu curiosidades, o Victor Matos que tinha um tio paterno a cumprir pena em Peniche, tratou de me avisar para ter cuidado por ali andarem agentes da PIDE. Devo confessar que mais tarde apurámos que se tratavam de indivíduos que, ao abrigo da lei militar, se propunham a prestar provas para uns exames quaisqueres.
Logo na primeira aula, alguns dos alunos bombardearam a Professora de Francês com perguntas. Ninguém deu matéria, o Professor de História chegou a falar no problema da guerra em África e, pelo fim da manhã, fomos todos para casa, dado o estabelecimento de ensino encerrar as portas para o resto da jornada.
De tarde lá me encontrei com uns quantos amigos que tal como eu, tinham ganho um feriado inesperado.
É verdade que ao princípio da noite desse mesmo dia, desfilou entre o Barreiro e o Lavradio uma manifestação de apoio e reconhecimento ao Movimento da Forças Armadas e à Junta de Salvação Nacional que iria provisoriamente governar o país e após o jantar, quando reencontrei os meus amigos na colectividade do costume, já todos sabíamos que tinha acontecido uma grande mudança política.
Contudo, nessa tarde, eu e mais dois ou três amigos, se não estou em erro, o Rui, o Luís Carlos e o Zé Carlos Simas, passámo-la toda a jogar a um jogo que consistia em atingir com uma garrafa o vasilhame de um adversário, vencendo aquele que partisse a do outro, com a regra de que, sempre que o nosso vidro tocasse o alheio tínhamos direito a repetir a jogada.
Quanto a mim, a curiosidade está no facto de ter sido a única vez que participei em tal género de jogatina.
Portalegre
19 de Fevereiro de 1996
Tanto para mim como para alguns amigos meus, a quinta-feira, vinte e cinco de Abril de mil novecentos setenta e quatro, foi um dia sem aulas.
Tinha então quinze anos de idade e, com isso, não se pense que eu era, de todo, um ignorante dessas coisas proibidas da política. Só pelo facto de ser nado e criado numa Vila com história no movimento operário e oposicionista à ditadura do Estado Novo, dificilmente me passaria despercebida a existência desses tabus e, naturalmente, muitas seriam as probabilidades de lhes vir a conhecer os enredos, ou parte, pequena parte, deles, para sermos mais precisos. Mas, sobretudo, acontecia que os adultos da minha família não morriam de amores pelo regime e, se em frente das crianças se abstinham de algumas abordagens, muitas vezes deixava, sair os seus comentários e não era preciso ser lá muito esperto para se perceber os seus ideias liberais e democráticos Em sessenta e nove, por exemplo, recordo a garrafa de espumante que o meu pai e o meu padrinho –o seu irmão mais velho- abriram para comemorar a vitória da oposição na Junta de Freguesia, ainda que a mesma tenha sido irrelevante. Lembro bem não só a alegria, como também o ambiente de silenciosa conjura com que o fizeram:
“-Vá lá Emília.” –Invectivava o meu tio Jofre a minha mãe para que tomasse parte na comemoração. “-Bebe também um gole que, pelo menos aqui, aqueles tiranos não se ficaram a rir.”
Além do que para dois dos meus primos mais velhos, as rebeldias de juventude se confundiam com a frequência de certos, política e até socialmente, pouco recomendáveis, tais como certas colectividades e cine-clubes, da região, onde pululavam os agitadores.
Mesmo com muitos dos miúdos com quem melhor me relacionava acontecia o mesmo. O Rui Madeira, com quem meses antes lera um livrinho de Jean Bruhat sobre Marx e Engels, tinha uma prima que estudava no Técnico, em Lisboa, e que lhe falava daqueles nomes e de Lenine, da revolução russa e da revolução chinesa e depois dizia que os russos eram revisionistas pois tinham traído a causa do povo, como me explicava o primo, quando, por vezes, as conversas entre os dois versavam aquele género de assuntos.
E até tínhamos aventuras nos nossos curriculum o o que, no meu cão, bastava ser a frequência da casa de um doutor qualquer que residia no Barreiro e que, de quando em vez, atirava aviões de papel com mensagens subversivas pela janela do sétimo andar. Tenho a certeza que, da primeira vez, o olhei com a admiração de quem tem pela frente um autêntico Gerado Sem Pavor.
Bem sei que para muitos foi o vinte e cinco de Abril um dia empolgante, em certos aspectos, quase diria épico. Para não falar daquela massa de gente que, em expectativa e apoio dos revoltosos, a partir do meio da tarde começou a invadir os cenários públicos da convulsão e, só para citar um nome, registo Francisco Sousa Tavares que, no Carmo, em nome e em auxílio dos militares, incentivava o povo a permanecer calmo e em ordem, enquanto decorria a negociação para a rendição de Marcelo Caetano e com ela, formalmente, a queda do regime. Antes de todos, em primeiríssimo lugar, está o Capitão Salgueiro Maia, quanto a mim, figura digna do panteão dos grandes heróis nacionais.
Tais são as memórias de quem assistiu, não em directo, como, hoje em dia, se gosta de sublinhar, mas ao vivo, ao derrube da tirania.
Sem embargo, no que me diz respeito, é como lhes disse, já não sendo ceguinho quando a revolução dos cravos estalou, mentiria se aqui pretendesse outra coisa; o dia vinte e cinco de Abril foi, sobretudo, um dia sem aulas e nada para fazer.
O meu primeiro contacto com os acontecimentos foi um comunicado do MRPP que li, numa tarjeta, entre as muitas que estavam espalhadas pelos passeios. Como tinha aulas matinais no Liceu do Barreiro, costumava tomar a camioneta da carreira do Montijo por volta das sete e trinta e ainda não tinha compreendido a comunicação que alertava a população para o perigo de se envolver no que supostamente era um golpe dos ultra capitaneados por Kaúlza de Arriaga, quando um rapaz de rádio ao ouvido me explicou que não se sabia bem o que era. A Emissora Nacional estava a transmitir música e de vez em quando liam um comunicado de um movimento das forças armadas, em que se pedia à população para permanecer calma e fazer a sua vida normal e em que se afirmava estar em curso um golpe militar para acabar com o regime. Chegado à escola, todo eu curiosidades, o Victor Matos que tinha um tio paterno a cumprir pena em Peniche, tratou de me avisar para ter cuidado por ali andarem agentes da PIDE. Devo confessar que mais tarde apurámos que se tratavam de indivíduos que, ao abrigo da lei militar, se propunham a prestar provas para uns exames quaisqueres.
Logo na primeira aula, alguns dos alunos bombardearam a Professora de Francês com perguntas. Ninguém deu matéria, o Professor de História chegou a falar no problema da guerra em África e, pelo fim da manhã, fomos todos para casa, dado o estabelecimento de ensino encerrar as portas para o resto da jornada.
De tarde lá me encontrei com uns quantos amigos que tal como eu, tinham ganho um feriado inesperado.
É verdade que ao princípio da noite desse mesmo dia, desfilou entre o Barreiro e o Lavradio uma manifestação de apoio e reconhecimento ao Movimento da Forças Armadas e à Junta de Salvação Nacional que iria provisoriamente governar o país e após o jantar, quando reencontrei os meus amigos na colectividade do costume, já todos sabíamos que tinha acontecido uma grande mudança política.
Contudo, nessa tarde, eu e mais dois ou três amigos, se não estou em erro, o Rui, o Luís Carlos e o Zé Carlos Simas, passámo-la toda a jogar a um jogo que consistia em atingir com uma garrafa o vasilhame de um adversário, vencendo aquele que partisse a do outro, com a regra de que, sempre que o nosso vidro tocasse o alheio tínhamos direito a repetir a jogada.
Quanto a mim, a curiosidade está no facto de ter sido a única vez que participei em tal género de jogatina.
Portalegre
19 de Fevereiro de 1996
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